O perigo do perfeccionismo
Na sociedade atual, o perfeccionismo é um traço bastante valorizado. O que entendo por perfeccionismo é a colocação de padrões altos demais para serem alcançados na prática. O não alcance desses padrões (que podem não ser conscientes) gera uma insatisfação e um sentimento de derrota, abaixa nossa auto-estima como se fôssemos incompetentes. Nunca questionamos a viabilidade desses padrões. Mas, mesmo quando alcançamos os padrões, julgamos ser fácil demais ou termos dado sorte, então, colocamos padrões mais altos ainda, gerando um ciclo de insatisfação sem fim. O perfeccionismo leva à cansaço mental e físico (pelo estresse contínuo), baixa auto-estima, depressão, isolamento social, irritação, dificuldade de relaxar, aceleração do pensamento, colocação de múltiplas tarefas, confecção de listas infindáveis de afazeres, etc.
O problema maior é que podemos transferir essa "mentalidade empresarial" para nossa fé. O perdão não é algo que se realize de imediato e a obra de Deus vai germinando aos poucos como uma semente dentro de nós. Porém, se somos perfeccionistas, podemos criar expectativas irreais dentro de nós. As crenças perfeccionistas levam a expectativas e regras que colocamos para nós. Podemos colocar as seguintes regras ou suposições:
Preciso perdoar imediatamente senão sou uma pessoa má
Não tenho vergonha na cara se não for todo domingo à missa
Preciso rezar todos os dias diante duas horas sem distrações
Se não me sentir disposto todos os dias para rezar significa que não tenho fé
Se recair na pornografia é porque não tenho jeito
Essas regras que criamos podem levar à ira conosco mesmos, sentimentos de derrota, desistência da fé, raiva de Deus e uma série de consequências negativas. Quando falamos dos comportamentos aditivos ou compulsivos (beber, fumar, sexo, compras, eletrônicos, jogo) isso é especialmente verdade. Ninguém para de uma hora para outra até porque os vícios mexem com uma área muito primitiva do nosso cérebro, a que gera os sistemas de recompensa.
Tive um relacionamento de 4 anos que quando terminou me fez sofrer muito. Não consegui perdoar imediatamente, levou anos pra isso. O padre com quem conversei me ajudou muito a entender que isso era um processo e que eu tinha que respeitar o meu tempo, tendo sempre a decisão de perdoar em mente. Meus sentimentos demoraram a se assentar mas o dia finalmente chegou. Assim como o perdão, o luto é um processo e a cura, idem.
Precisamos ter paciência conosco mesmos porque Deus respeita o nosso tempo. Deus entende que cometemos erros e nos ama mesmo assim. Deus não impõe condições dizendo: "Só vou te amar se você for legal ou se não comprar mais com exagero". A graça de Deus é isso, é de graça, não fizemos nada para merecê-la.
Quando recebemos um presente inesperado, ficamos sem graça porque não merecemos e nossa reação é agradecer ou querer dar algo em troca. Mas Deus não nos exige nada em troca para nos amar, nem a excelência, nem um comportamento perfeito. Deus ama o traficante,a prostituta, o bêbado, até aquela pessoa que comete os piores pecados do mundo. Não deixe sua vida espiritual ser destruída pelo perfeccionismo!
Existe um tipo de terapia chamada "Terapia Cognitivo Comportamental" que ensina as pessoas a controlarem esse tipo de pensamento. Existem excelentes livros de auto-ajuda para tal. Um deles se chama "A mente vencendo o humor", que você pode fazer sozinho em casa.
Peça a Deus a cura do perfeccionismo, deixe-se amar por ele, aproveite esta graça.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
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