domingo, 7 de outubro de 2012



A intolerância à frustração como causa das dependências


Uma causa comum dos comportamentos compulsivos é a intolerância à frustração, quer dizer, quando não toleramos que as coisas não saiam do jeito que a gente quer. Nossa primeira tendência é a de dizer: Eu sou uma pessoa madura, não faço isso. Será que não? Algumas pessoas discutem, ficam com raiva e vão logo fumar um cigarro. Outras, vão pagar uma conta e quando encontram o banco fechado sentam para tomar uma cervejinha para relaxar. Costumamos ter intolerância aos sentimentos negativos por não saber lidar com eles. Isso pode ser fruto de uma educação excessivamente indulgente (excesso de mimo, a pessoa tinha tudo o que queria) ou ainda de uma falta de modelos adequados (pais com problemas de intolerância à frustração, crianças negligenciadas e abusadas). É conhecida em psicologia a tese de que a frustração gera raiva mas pode levar também à tristeza quando não manejada a longo prazo, à ansiedade também.
Os sentimentos negativos em geral são difíceis de serem manejados: a tristeza, a solidão, a baixa auto-estima, a raiva, a desesperança, o ciúme, a inveja são sentimentos que despertam nossas reações mais primitivas. É doído lidar com eles, muitas vezes nosso orgulho não permite que analisemos com cuidado as situações de nossa vida que os causam ou então até sabemos quais são mas não conseguimos enxergar uma saída, não temos fé. A pessoa intolerante à frustração funciona no que chamamos em psicologia de “princípio do prazer”, ou seja, a pessoa busca a satisfação a qualquer custo sem pensar nas conseqüências a longo prazo. Esse tipo de funcionamento é normal nas crianças mas a educação vai corrigindo e transformando-o no “princípio da realidade” que considera o bem estar dos outros, as conseqüências negativas a longo prazo, os riscos do comportamento. Uma pessoa que funciona no princípio do prazer não cresceu, não é madura e pode por exemplo fazer sexo com desconhecidos sem pensar na difamação, no risco de pegar uma doença, de ser roubada, usada, etc. Ouvi da boca de uma colega que uma amiga sua considera o sexo uma necessidade vital. Quer ter relações no mínimo três vezes por dia e todos os dias. Evita olhar para homens na rua porque se o homem piscar para ela, ela vai para a cama, não consegue se controlar, seja ele quem for. Esta mulher funciona de forma infantil. É como se seu pensamento fosse: “Eu quero então devo ter”. Essas pessoas enxergam o desejo como incontrolável e se tornam escravas dele. “É maior do que eu, não consigo”, é uma frase comumente ouvida, isso quando não colocam a culpa na biologia.
A longo prazo todos nós passamos por muitas frustrações, nossa vida não é como planejamos mesmo que Deus não esteja conosco. Sabemos que ele tem um plano de amor para nós e que só nele seremos felizes embora possamos optar por outros caminhos. Na visão espiritual, a intolerância à frustração passa também pelo narcisismo. O nosso prazer e realização é mais importante do que a vontade de Deus em nossas vidas. Não entendemos que nossa visão é pequena e que não vemos da forma que Deus vê. Insistimos como crianças malcriadas quando somos “bloqueados” de alguma forma: Ai, Senhor, eu preciso disso. Eu quero agora... São as orações egoístas que fazemos mesmo quando todas as evidências dizem o contrário. Parecemos aquelas crianças birrentas que se jogam no chão no meio do shopping quando a mãe nega alguma coisa mas Deus não cede aos nossos apelos. Ai, Senhor, eu quero aquele marido, desse jeito: loiro, alto, rico... Mas Deus pode querer outra coisa pra você e você insiste na oração, faz prece, novena, ajoelha, faz romaria e Deus não dá. Durante cinco anos senti falta de um namorado e Deus não me deu. Todas as tentativas de namoro davam erradas. Para medicar a minha dor emocional e a minha raiva eu poderia ter recorrido às drogas e aos comportamentos compulsivos como forma de aliviar a minha ansiedade.
Uma mãe perde um filho e se torna alcoólatra pesada, correndo risco de vida inclusive. Um homem termina seu casamento e bebe a ponto de arrumar confusão no emprego. Uma mulher perde o namorado que amava e se entrega a qualquer homem que vê. Outra mulher sofre de ansiedade crônica por se preocupar demais com o futuro e começa a comprar compulsivamente. Ainda mais uma mulher não se conforma com o divórcio e passa quase o dia todo no trabalho. O que essas pessoas têm em comum? Seus planos não foram para a frente, suas metas não foram cumpridas e ficaram paralisadas em suas frustrações. Ao invés de atacarem o núcleo do seu problema, preferiram anestesiar a dor e tapar o sol com a peneira. Medicam os sintomas criando outros sintomas numa espiral de decadência.
Digamos que seria mais fácil a primeira mulher aceitar fazer uma psicoterapia e entregar de vez o filho a Deus, aceitando que ele nunca pertenceu a ela e que Deus é soberano para levar as pessoas consigo quando quer. O segundo homem deveria ter melhor resolvida a questão do casamento e assim, não geraria a agressividade que o fez perder o emprego. A terceira mulher parece deprimida e isolada, sentindo-se só e tendo poucos amigos. Poderia investir em novas amizades e numa comunidade na Igreja. A quarta mulher precisa trabalhar o problema da ansiedade se entregando mais à providência divina e a quinta mulher pode estar deprimida e necessitar inclusive de medicação e de aconselhamento.
A dependência encobre frustrações que não queremos ou não podemos encarar. Deixamos de procurar as causas para lidar com as conseqüências, não nos damos conta dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos, da nossa forma de encarar a vida. A dependência apenas encobre nossos vazios e não nos deixa lidar com eles. Se esse é o seu caso, parta dos sintomas para encontrar as causas. Analise seus pensamentos e ore para que Deus lhe mostre a causa. Você pode manter um diário de oração, participar de mais atividades na Igreja, orar com a Bíblia para manter um canal de comunicação melhor com Deus. Você pode e provavelmente vai se deparar com coisas doloridas e difíceis que exigem grandes decisões e mudanças de comportamento mas quando a ferida sangra, precisamos cura-la e não somente limpar o sangue que escorre. Deixe o sangue de Jesus agir sobre a sua ferida, deixe Deus colocar sua luz onde só há trevas, deixe Deus mostrar sua vontade nessa área problemática da sua vida. Peça a nossa senhora que desate os nós que estão causando tanta confusão e comece a reconstruir o templo do seu coração, destronando o princípio do prazer e colocando Jesus no lugar. Crescer dói, às vezes deixa a gente sem chão mas é extremamente necessário.Precisamos deixar de ser crianças na fé para usufruirmos de nossa maturidade e liberdade responsável.


A fé que remove montanhas


Tem vezes que a vida nos dá uma espécie de rasteira. São momentos de provação que parecem não ter fim. Uma coisa acontece atrás da outra, só problemas grandes e parece que o chão vai faltar debaixo dos nossos pés. Estou passando por esse tipo de situação no momento e ele só tem uma única resposta: a fé.
Quando estamos indo bem no projeto de Deus e coisas boas estão acontecendo na nossa vida, Deus permite que o inimigo nos prove para que a nossa fé aumente. Se estivéssemos o tempo todo em bons ventos, confiar na força de Deus não seria necessário, poderíamos achar que tudo o que fizemos foi por nossa própria conta e valor. Quando nos achamos em uma situação difícil, podemos confiar em Deus para fazer aquilo que está fora do nosso próprio alcance. Dou aqui um exemplo da minha própria vida: Numa determinada semana eu tive um problema no meu trabalho. Fui injustiçada por um determinado funcionário que sempre competia comigo e começou a denegrir meu trabalho para a chefia e para os próprios pacientes. Veja bem: meu trabalho tinha sido sempre o mesmo durante três anos e eu só tinha ouvido elogios, quando este sujeito entrou no serviço começaram as reclamações. A fofoca foi tão grande que a chefe de enfermagem veio me chamar a atenção, dizendo que eu estava piorando as pacientes. Ela se baseou nos comentários dele para afirmar isso e numa situação esporádica que nada tinha de exemplar. Na hora fiquei muito triste de estar sendo “rebaixada”, tive vontade de chorar e de dizer que se não estavam satisfeitos, que eu mudaria de setor. Fui embora naquela mesma hora. Chorei em casa com Deus e disse: “Senhor, estou sendo injustiçada, não cometi nenhum desses atos. Minha vontade é ir embora, não sei como resolver o problema mas creio na tua vitória na minha vida. O Senhor me trouxe para esse emprego e eu preciso do dinheiro. Por favor me ajude a permanecer lá se o Senhor assim deseja.” Mesmo não contemplando uma resposta, entreguei nas mãos de Deus. Uma colega viu que eu estava muito abatida e disse que também achava injusta a situação, que os pacientes pareciam gostar muito de mim e que eu era necessária. Na semana seguinte, compareci normalmente apesar de ter medo das reações. Resultado: a enfermeira-chefe me cumprimentou sorrindo, o tal funcionário não tocou mais no assunto (pois naquele dia ia me chamar a atenção) e continuei exercendo meu ofício como se nada tivesse acontecido. Ponto para Deus!
Mas, meu sofrimento ainda não estava terminado. Domingo estava na casa do meu namorado me divertindo quando recebi uma ligação dizendo que minha mãe tinha tentado se matar bebendo água sanitária. Fui correndo para casa (estava bem longe) e ao chegar, todos estavam sentados em torno da mesa e minha mãe se justificava pelo ato. Aquilo estava claramente fora das minhas mãos mas a partir daquele dia, passei a me aproximar mais da minha mãe para tentar ajuda-la. Foi preciso um ato extremo para que eu percebesse o quanto estava ausente.
Mas isso ainda não era o fim. Quando ainda me recuperava dessa tragédia, três dias depois, meu namorado brigou feio comigo (confesso que tive culpa). Foi a pior briga que a gente teve. Ele disse que não sabia mais se queria ficar comigo. Fiquei arrasada, chorei. Além disso, ele ficou ausente mais do que nunca, ligando esporadicamente à noite, muito irritado, sugerindo que iria terminar o relacionamento. Nesse momento, adotei uma atitude de desespero, ficando sem comer, dormindo à base de calmantes, não conseguindo me concentrar (fazia um curso importante para uma prova).
No auge do meu desespero, clamei a Deus por resposta. Vinha muito forte no meu coração que eu lesse a carta de Pedro (eu nem sabia qual), mas cheguei finalmente a esse trecho que me chamou a atenção:

Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que os vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós.O Deus de toda graça, que vos chamou em Cristo à sua eterna glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vos fortificará.              
(I Pd 5, 6-10)

Imediatamente me identifiquei com a passagem e percebi que eu estava sofrendo um ataque do inimigo. Justamente quando eu orava em línguas, meu namorado me ligou muito irritado. Aquilo me desconcentrou profundamente. Era como se o inimigo quisesse me fazer ver a situação “real”. O inimigo procura jogar na nossa cara aquilo que os olhos vêem para que acreditemos que não tem jeito, que Deus mentiu em suas promessas, que é inútil nossa oração. Enquanto eu orava, a situação “real” é que meu namorado não queria muito falar comigo. Qualquer um que olhasse externamente a situação diria: “É, não tem conserto, ele vai terminar com você”. Mas Deus, por debaixo dos panos, movia o mundo espiritual em meu favor. Em algumas horas minha humanidade predominava e eu chorava mas em outras, minha fé se fortalecia e eu conseguia enxergar o tamanho da provação. No dia seguinte, me veio a inspiração de ler o salmo 58, que eu nem sabia qual era:

SALMO 58- SÚPLICA DE UM INOCENTE PERSEGUIDO

1.              Para o mestre de canto. Não destruas. Cântico de Davi, quando Saul mandou cercar-lhe a casa para o matar. 
2.        Livrai-me, ó meu Deus, dos meus inimigos, defendei-me dos meus adversários.     
3.        Livrai-me dos que praticam o mal, salvai-me dos homens sanguinários.    
4.        Vede: armam ciladas para me tirar a vida, homens poderosos conspiram contra mim.  
5.           Senhor, não há em mim crime nem pecado. Sem que eu tenha culpa, eles acorrem e atacam. Despertai-vos, vinde para mim e vede,  
6.           porque vós, Senhor dos exércitos, sois o Deus de Israel. Erguei-vos para castigar esses pagãos, não tenhais misericórdia desses pérfidos.          
7.        Eles voltam todas as noites, latindo como cães, e percorrem a cidade toda.    
8.        Eis que se jactam à boca cheia, tendo nos lábios só injúrias, e dizem: Pois quem é que nos ouve?    
9.        Mas vós, Senhor, vos rides deles, zombais de todos os pagãos. 
10.       Ó vós que sois a minha força, é para vós que eu me volto. Porque vós, ó Deus, sois a minha defesa.  
11.       Ó meu Deus, vós sois todo bondade para mim. Venha Deus em meu auxílio, faça-me deleitar pela perda de meus inimigos.
12.           Destruí-os, ó meu Deus, para que não percam o meu povo; conturbai-os, abatei-os com vosso poder, ó Deus, nosso escudo.
13.       Cada palavra de seus lábios é um pecado. Que eles, surpreendidos em sua arrogância, sejam as vítimas de suas próprias calúnias e maldições.       
14.           Destruí-os em vossa cólera, destruí-os para que não subsistam, para que se saiba que Deus reina em Jacó e até os confins da terra.
15.       Todas as noites eles voltam, latindo como cães, rondando pela cidade toda.    
16.           Vagueiam em busca de alimento; não se fartando, eles se põem a uivar.    
17.       Eu, porém, cantarei vosso poder, e desde o amanhecer celebrarei vossa bondade. Porque vós sois o meu amparo, um refúgio no dia da tribulação.
18.       Ó vós, que sois a minha força, a vós, meu Deus, cantarei salmos porque sois minha defesa. Ó meu Deus, vós sois todo bondade para mim.     

Mais uma vez, o Senhor me mostrava o tamanho da provação que eu estava passando. O inimigo é como esses cães sedentos de sangue que buscam uma pequena brecha para provocar a destruição. Mais uma vez o Senhor me exortava a permanecer firme e agradecer. Davi estava acuado, pronto para ser morto por Saul. Imagine você humanamente esta situação, estar cercado na própria casa por um exército pronto para mata-lo!! Qualquer um irromperia em pânico, sem saída. Mas Davi, confia que Deus vai esmagar seu inimigo e exalta o poder de Deus diante daquele impossível.
Toda provação tem um fim. A maioria não dura muito tempo, apesar de a sensação psicológica ser de que durou uma eternidade. Todas as vezes que seguimos no caminho de Deus, seremos constantemente provados, tanto mais quanto o tamanho e importância da nossa missão. Para servirmos a Deus, precisamos conhece-lo primeiro. Deus diz o tempo todo para mim: “Isso não lhe cabe resolver, quem vai resolver sou eu”.
Dou outro exemplo bem claro: Eu e meu namorado lutávamos pela aprovação de um recurso numa dada prova de concurso público. Tentamos de todas as formas humanas conseguir a aprovação do recurso, inclusive pelo corporativismo (o favor, o jeitinho), tamanha era nossa vontade de conseguir aquela vaga. No entanto, as pessoas com quem falamos, foram retiradas da função poucas semanas depois. Tentei ligar inúmeras vezes para saber sobre o recurso mas nunca conseguia falar. Era mais uma forma de Deus me dizer: “Vou fazer impossível pra você e assim você saberá que quem fez fui eu.” O recurso ainda não saiu mas colocaria a minha mão no fogo para dizer que será aprovado sem a nossa intervenção. Diz o Senhor:

ISAÍAS 48 (3-8)


O que passou, eu predisse com muita antecipação; depois me pus à obra, e tudo se realizou. Sabendo bem que és rígido, que tua cerviz tem músculos de ferro, e que tua fronte é de bronze, eu te predisse os acontecimentos com muita antecedência, antes que acontecessem eu te preveni, para que não pudesses dizer: Foi meu ídolo quem os fez, foi minha estátua esculpida ou fundida quem os provocou.  
Do que ouviste, vês a realização: não deves atestá-lo? Pois bem, vou revelar-te agora novos acontecimentos, ainda mantidos em segredo, e que tu não conheces. Foram criados agora, e não antigamente; nunca até aqui ouviste falar disso, de maneira que não poderás dizer: Já o sabia.Não, tu nada sabias, tu não o suspeitavas, eu não te havia feito ainda a confidência, porque sabia que eras desleal, chamado rebelde desde teu nascimento.    

Em outras palavras, Deus está dizendo: Você é cabeça dura, rebelde, difícil de acreditar, por isso eu disse antes de acontecer, para que você não dissesse que foi você que fez ou o seu ídolo.Em Isaías 3, 1, Deus reitera:

Eis que o Senhor, Deus dos exércitos, vai tirar de Jerusalém e de Judá todo sustentáculo, todo recurso: toda a reserva de pão e toda a reserva de água.

Entenda-se aqui: vou tirar tudo aquilo em que você se apóia humanamente pois a confiança vai ter que ser só em mim. Davi confiava mesmo sem ter visto. Prestes a morrer (na visão humana), confiou que Deus lhe daria a vida e foi isso que aconteceu. Quando perguntam se está tudo bem em vez de darmos um muxoxo e dizer que tudo vai mais ou menos ou indo, digamos “Está tudo bem”. Meu Deus é um Deus que dá a vitória e precisamos crê-lo antes que aconteça. Deus me prometeu um emprego para esse ano. O concurso saiu apenas agora em outubro. Se eu chegasse em julho e dissesse: É, Deus mentiu. Além de estar cometendo um sacrilégio, não teria fé nenhuma no meu Deus. O Seu Deus é um Deus do possível e do provável ou é um Deus do impossível, do milagre? O que Deus pode fazer na sua vida depende do que você crê.
Não é fácil. É uma luta constante porque seus sentidos não vêem a vitória de antemão e o inimigo quer te convencer de que essa situação temporária não vai mudar. O inimigo quer que você creia que é um derrotado, que nasceu para perder e tem que se conformar com isso. Mas Deus continua agindo no mundo espiritual embora suas ações só sejam visíveis a nós no momento certo. Meu Deus não é um Deus fraco, impotente, que só age naquilo que eu acho que é possível a mim mas que tenho preguiça de fazer.
Voltando ao assunto do meu namorado. Tentei falar com ele mas ele se recusava a conversar por telefone porque estava muito irritado. Chegou a marcar de conversar pessoalmente mas depois desistiu porque estava com a cabeça quente. Na hora fiquei muito chateada pois quem está angustiado quer se livrar logo da angústia. Mas depois, parei e vi o livramento de Deus. Se tivéssemos nos encontrado naquele dia, poderíamos ter terminado e criado uma marca irreversível no nosso relacionamento. Então, orei a Deus: Senhor, você colocou esse homem na minha vida e é você que precisa ajudar a mantê-lo pois não detenho mais o poder de resolver essa situação nem posso mandar na mente dele, muito menos à distância. A situação ainda não se resolveu concretamente mas Deus me deu uma visão um dia antes do problema acontecer, mostrando que eu caminhava de um penhasco a outro por uma estreita faixa de terra mas que tinha firmeza. Embaixo, ondas batiam e a altura era enorme. A faixa só dava pra andar com um pé na frente do outro para você ter a idéia da finura. Na visão senti muito medo mas Deus me mostrava a firmeza pela qual ele ia me conduzindo. Senti no coração que se aquela faixa ameaçasse desmoronar, o próprio Deus me sustentaria com as mãos dele para que eu chegasse do outro lado. Junto com a visão me veio o famoso versículo:

Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo.
(Salmo 22,4)

Bordão e báculo querem dizer quase a mesma coisa. Bordão é um pedaço de pau que os pastores podem usar para guiar as ovelhas e báculo tem o mesmo significado, sendo que pode ser também o cajado do bispo. Aqui o Senhor mostra-se sendo o pastor. Não um pastor de ovelhas simplesmente mas o SEU pastor. O pastor é aquele que cuida, protege, carrega no colo, cuida das doenças, ele dá a vida pelo seu rebanho. O pastor é maior que as ovelhas, mais inteligente que elas para prever o perigo. Você é a ovelha nas mãos do pastor Jesus. O meu vale escuro são essas provações que eu passo, é a faixa de terra que vi na visão mas não temerei pois Deus me confirma sua presença. Meu amparo é a presença do pastor, é o cajado que me lembra da sua proteção.

Repete o Senhor:

O SENHOR aboliu a sentença contra ti, afastou teus inimigos. O rei de Israel é o SENHOR, que está em teu meio; não precisarás mais ter medo de alguma desgraça. Naquele dia, Deus dirá a Jerusalém: “Não tenhas medo, Sião! Não te acovardes! O SENHOR teu Deus está a teu lado como valente libertador! Por tua causa ele está contente e alegre, apaixonado de amor por ti, por tua causa está saltando de alegria, como em dias de festa”. “Afastarei a desgraça para longe de ti a fim de que, por sua causa, não venhas a sofrer humilhação.
(Sofonias 3, 15-18)

Senhor, não permitas que a desgraça me humilhe, não permitas que seu nome seja ultrajado pela força do inimigo. Ele pode ser forte mas tu és o criador, mais poderoso que qualquer um que venha a te afrontar. O Senhor é um Deus de promessas, um Deus de verdade e sua palavra não muda. Prometeste para mim a vitória em tudo aquilo que fosse da sua vontade e hoje eu venho agir como Davi e proclamar minha vitória. Obrigada Senhor por já ter me dado a saída dessas situações. Humanamente não consigo contemplar para onde ir, não consigo ver e o inimigo tem me mostrado muitas coisas ruins ao mesmo tempo. O inimigo quer me fazer crer na derrota mas eu creio na tua palavra, sei que estás agindo e sei também que algumas coisas levam tempo e eu preciso saber esperar. Obrigada pai pela fé que você está me dando, pelas provações que fazem com que a minha fé aumente. Humanamente é uma luta diária brigar com aquilo que os olhos contemplam mas com a tua graça conseguirei ser firme e suportar as demoras para chegar até o troféu. Amém!
      


A fé no Deus do impossível

“Dá gritos de alegria, estéril, tu que não tens filhos; entoa cânticos de júbilo tu que não dás à luz, porque os filhos da desamparada serão mais numerosos do que os da mulher casada, declara o Senhor”. Isaías 54,1

Imagine a cena acima. Uma mulher, já com idade, vendo todas as amigas casadas e com filhos, imagina ter perdido seu grande sonho. Ainda pode ter filhos mas não acha que isso é mais possível, se sente desamparada e infeliz, acha que não tem mais nada. De repente chega uma pessoa e diz para ela se alegrar porque tudo o que ela queria vai acontecer. E não é uma simples alegria, é a alegria da vitória, da conquista. A pessoa manda ela comemorar, dar uma festa, avisar a todo mundo, falar do casamento e dos filhos que virão. Como essa mulher se sentiria? Provavelmente com medo de ser envergonhada, de fazer toda essa propaganda e aquilo ser simplesmente uma brincadeira de mau gosto. Aqui, Deus promete uma grande felicidade, superior à das mulheres que a nossa personagem inveja. Talvez hoje você esteja invejando a vida de alguém mas Deus vem te dizer que a sua felicidade será maior que a de todas essas pessoas. Você não está lendo esse texto por acaso. Deus te trouxe até aqui para que você creia nessa vitória, você não deve ter medo da desgraça e nem se envergonhar. A sua grande bênção está a caminho.
A fé no impossível é assim. Só vê milagres quem crê neles. Posso dar alguns exemplos. Ano passado, Deus tinha me prometido o emprego que pedi há tanto tempo: passar num concurso. Há sete anos que estudava sempre e Deus todos os anos me prometia que um dia viria. Finalmente, em 2011 ele me disse que seria naquele ano. Mas, os meses se passavam e nada acontecia. Fiz duas provas e não fui chamada. Comecei a achar que tinha entendido mal mas aquela alegria no meu coração não me deixava esquecer da promessa de Deus. Decidi acreditar mesmo que meus olhos de carne não me dessem nenhum motivo. Comecei a traçar meu próprio futuro, a imaginar em que concurso eu ia passar. E os meses passando, o ano ia chegando ao fim. No último trimestre surgiu um concurso que nunca tinha sido comentado nos jornais e com um bom número de vagas. Me animei e disse: É esse! Mas o número de concorrentes era igualmente grande e tinha gente que parecia estudar bem mais do que eu! Fiquei com medo, achei que talvez não entrasse nas vagas. No dia 29 de dezembro de 2011 saiu a classificação: das 45 vagas eu tinha ficado em 5o lugar! Deus não tinha mentido, o lugar era mesmo meu! Para completar, em 2012, um concurso que eu tinha até me esquecido, de 2007, me chamou. Resultado: Deus me deu dois empregos públicos e a independência financeira. Bastou crer.
Outro exemplo: passei 5 anos sozinha depois do termino de um namoro e Deus todo ano me lembrava da promessa dele, de que ele me daria uma pessoa. Toda pessoa com quem me envolvi nesses 5 anos, se afastou de mim por algum motivo, nunca dava certo. Em 2011, Deus me disse que a pessoa certa viria. E veio para ficar. No início tive muito medo que desse errado mas Deus me dava cada vez mais sinais desse processo, de que era da vontade dele. Hoje estamos firmes e fortes.
Deus tem me prometido muitas coisas o tempo todo e às vezes é difícil crer porque os nossos olhos de carne enxergam todos os empecilhos para a situação acontecer. Precisamos compreender que Deus sabe como removê-los e que Deus conhece muito mais possibilidades do que as que estão a nosso alcance. Pensamos naquilo que conhecemos, nossa mente compreende um número limitado de possibilidades, Deus calcula absolutamente tudo. Sabemos que é dele quando nosso espírito se alegra. É difícil descrever, mas ele nos dá sinais e nos mostra sua vontade e suas promessas. Às vezes tudo parece que vai dar errado, mas sempre me dei mal quando duvidei da palavra de Deus na minha vida. Ele sempre cumpre, surge “do nada” com algumas coisas. Meu namorado mesmo, eu não o via há 5 anos, não tínhamos nenhuma espécie de contato nesse tempo e Deus nos uniu de forma inesperada. Assim, ele faz com qualquer coisa da nossa vida. É necessário dizer a Deus da nossa incapacidade humana de crer e pedir ao Espírito Santo que venha em nosso auxílio. O que você faria se Deus te prometesse hoje a casa própria tão sonhada? E se você não tivesse hoje meios humanos para isso?
Uma pessoa do meu grupo de oração estava com o tênis bem velho mas não possuía outro. Deus lhe disse: “Jogue o tênis fora”. A pessoa achou um absurdo e não o fez porque ficaria sem nenhum. Na mesma semana, ele ganhou um tênis novo em folha de presente de aniversário. Para outra pessoa, Deus prometeu a conversão do marido. A esposa ia sempre sozinha à missa enquanto o marido ficava dormindo em casa. Ela participava de retiros e ele sempre criticava. Passado algum tempo, começou a se interessar aos poucos e hoje ambos vão juntos.
Costumamos ter fé somente naquilo que nossos olhos humanos crêem ser possível. Se a gente consegue pensar numa saída possível, dá pra ter fé, se a coisa não parece ter jeito, é motivo para não crer. Como crer que vou ter a casa própria se não tenho um centavo? Como crer que vou me casar se não consigo um emprego digno? Como crer que a pessoa da minha vida está próxima se não a vejo no meio dos meus amigos e mal saio de casa? Uma amiga minha conheceu o atual marido através do trabalho. Usou o computador que pertencia a ele e precisou trocar a senha. Para isso, precisaram se falar. Ela mal saía de casa, não ia à noitadas nem nada. Conheceu o marido ali numa simples situação de trabalho.

“Não temas, não serás desapontada. Não te sintas perturbada, não terás do que envergonhar-te.” Isaías 54, 4

Existem pedidos ainda mais “impossíveis” mas que Deus não esquece de atender. Alguns exigem mais sacrifícios do que outros. Lembro de um testemunho dado pelo Márcio Mendes da Canção Nova, que conta de uma mulher que casou com um homem infiel. Ela ia à Igreja e pedia por ele sempre, ele continuava a traindo e se recusava a ir à Igreja mas ela não desistiu. Sempre tratou bem dele e continuou a oração. Tempos depois, ele conheceu a Deus através de um encontro na Igreja e deixou a traição. Agradece até hoje pela mulher que nunca desistiu dele.
Certa vez fui expulsa da minha pós graduação por uma confusão num trabalho de grupo. Eu e mais duas colegas tivemos que ouvir que estávamos com zero e não precisávamos retornar à sala de aula. Depois do primeiro momento de desespero, orei a Deus e ele me disse que eu passaria de ano. Na aula seguinte, tive a chance de fazer novo trabalho e fui aprovada no curso com média oito.
Este ano comecei a preparar o meu noivado mas meu namorado ficou desempregado e não tivemos com concretizar nossos planos. Ficamos muito tristes mas Deus nos reservava coisas boas. Ele começou a trabalhar e dois meses depois Deus nos ajudou a preparar o noivado, inclusive com ajuda de membros da minha família, abençoando-nos com coisas mais baratas, serviços feitos de graça, etc. Até parte do bolo ganhamos de presente (em dinheiro). Conseguimos encontrar alianças no nosso orçamento, metade do preço das outras que vimos e de boa qualidade, ganhamos um salão já pago, para ser reembolsado aos poucos. Deus providenciou toda a nossa festa nos mínimos detalhes. Essa é a fé no Deus do impossível, que não nos deixa abaixar a cabeça, que não nos deixa passar vergonha se nos prometeu alguma coisa. Sei como é difícil quando estamos passando por aquele momento, às vezes cansa esperar, às vezes parece que é mentira, que nunca vai acontecer, chegamos a duvidar se realmente foi Deus quem falou. Se você tem certeza de que realmente foi Deus, peça a ele a graça de seguir acreditando porque a bênção vai vir. Peça algum sinal ou um detalhamento da vontade dele na sua vida. Deus é tão bom que pode faze-lo.


A falta de perdão como origem das dependências


Ontem atendi uma paciente que me relatou a seguinte história: sua vida ia bem e gostava muito do pai. Seus pais eram casados e aparentemente felizes, sua família era evangélica e tinha muitas amigas. Há um tempo atrás o pai traiu a mãe de forma explícita e a vida dessa garota mudou radicalmente. Passou a detestar pessoas e se entregar à depressão. Parou de falar com o pai, que era seu exemplo de vida. Hoje em dia não come, não dorme, passa o dia trancada no quarto, chora o tempo todo, não estuda e olha para a parede. Ela reagiu à falta de perdão de forma depressiva, se entregando à raiva que voltou contra si mesma, por não conseguir tocar no assunto da traição nem com a mãe. Porém, ela poderia ter reagido de outra forma. Para aliviar a dor, poderia ter recorrido às drogas ou ao comportamento compulsivo.
Uma outra paciente minha, já senhora, também não perdoa a nora, que disse certas coisas que a magoaram. Não consegue nem tocar no assunto. Desde esse dia tem uma depressão que nenhum remédio cura. Se trata num grande hospital psiquiátrico já tendo dobrado a dose do remédio. Quando toquei com cuidado nesse assunto do perdão, chorou com grande dor e disse que não consegue perdoar. Esse problema tem infernizado sua vida há mais de 10 anos. Ela prefere se manter à base de remédios do que tocar na raiz da dor.
Muitas pessoas pensam que perdoar é libertar a pessoa daquele sofrimento onde acham que ela está. Perdoar pode parecer fraqueza, é como se você castigasse a pessoa ao não abrir mão daquela mágoa e conceder o perdão. No entanto, isso se trata de uma grande mentira do inimigo. Quando você “prende” uma pessoa a você pela mágoa, isso acontece apenas na sua mente, consumindo uma grande energia. A pessoa está longe de você e não sofre as conseqüências do seu castigo, não sente nada e continua livre para fazer aquilo que bem entende, inclusive continuar errando.  Você se consome dia e noite, drenando energia do seu corpo, da sua mente e do seu espírito para não deixar passar essa mágoa, que é a tendência natural do ser humano. Você se mantém encarcerado junto com a pessoa pois o carcereiro é tão escravo quanto aquele preso que tem que vigiar para não fugir. É como se você afundasse uma bola no fundo de uma piscina. Ela fica fazendo força para voltar para cima e você fica cada vez mais cansado de tentar empurra-la. Das duas uma: ou ela sobe ou você morre afogado.
É conhecida a história da Bíblia em que um homem devia dinheiro ao seu patrão e pediu clemência. O patrão perdoou a dívida pois teve pena daquele indivíduo que nunca teria como pagar tanto dinheiro e tinha família para sustentar. No entanto, este mesmo sujeito cobrou uma dívida de pequena monta e um companheiro. O devedor pediu clemência mas foi jogado sem dó nem piedade na prisão. O patrão do primeiro homem, ao ficar sabendo de tamanha injustiça, condenou-o ao pagamento total da dívida. Quantas vezes não somos como esse homem injusto? Deus nos perdoa de tantas coisas: ofensas contra ele, mentiras, adultério, falta de fé, idolatria, maldades, etc. e nós não hesitamos de manter outras pessoas trancafiadas, destilando todo nosso ódio contra elas. Deus se desagrada profundamente desse comportamento pois um dos maiores ensinamentos de Jesus foi justamente a misericórdia e o não julgamento. Como você quer ser tratado por Deus: com justiça ou com misericórdia. Você quer que Deus perdoe seus pecados ou que te castigue a cada má ação cometida? A justiça de Deus é muito pesada, nós seres humanos nunca conseguiríamos resistir, no entanto, é esse princípio que usamos para os outros. Assim, estamos permitindo que Deus use conosco a justiça, a qual certamente iremos sucumbir porque no tribunal de Deus ninguém é julgado inocente. Nossas faltas são muitas perto daquelas que os outros causaram contra nós. Deus é ofendido todos os dias, injuriado, novamente cuspido e crucificado por nós que não seguimos seus mandamentos como deveríamos. Mas nossa consciência continua chamado de justiça aquilo que é vingança. Pese na balança o que o outro te fez e o que você fez aos outros. Vale a pena castiga-lo e vingar-se dele? Tira primeiro a trave dos seus olhos antes de tirar o cisco do olho do seu irmão. É fácil se fazer de cego aos próprios pecados quando a dor que o outro causou é nosso foco de vida. Vivemos para nos vingar, tramamos planos de ofensa, maledicência, agressão, xingamento e às vezes até morte para defendermos nossa honra, para darmos a lição que aquela pessoa merece. Mas, esquecemos de um detalhe importante: cabe apenas a Deus julgar o pecado de cada um. Não somos juízes de ninguém. Não podemos roubar o lugar de Deus, fazendo um simulacro de julgamento e acreditarmos que a justiça foi feita. Qual a justiça que há em bater naquele que te ofendeu? Jesus nos manda oferecer a outra face quando apanharmos, dar o manto se te pedem a túnica. A lógica do nosso Deus é muito maior do que a lógica humana porque é a lógica da misericórdia. A parábola dos trabalhadores da vinha, em que os últimos receberam a mesma paga daqueles que trabalharam todo o dia, mostra que Deus não opta pela justiça, mas pela misericórdia.Ficamos incomodados ao descobrir que Deus nos ama tanto quanto aqueles que nos machucaram profundamente e que eles podem ir para o céu apesar de tudo. É como se Deus respondesse também a nós: Estou sendo injusto contigo ou estás com inveja porque estou sendo bom? A nós não cabe entender os critérios que Deus usa, mas usarmos sempre a misericórdia porque somente ele conhece profundamente a nossa alma e as coisas que nos levaram a ser como somos.
A pessoa ferida olha muito para sua própria dor e se considera o centro do universo: ele me feriu porque quis. Nem sempre. Às vezes as pessoas possuem feridas internas que fazem com que ajam de certa forma ou simplesmente não receberam amor. Quem é tratado como objeto, trata os outros como objeto. Além disso, devemos assumir nossa parcela de culpa em nossas próprias feridas. Será que você não se envolveu com as pessoas erradas? Será que você não estava consciente dos riscos quando decidiu se meter com certas pessoas? Será que no caminho do pecado você se machucou e agora culpa os outros?
No dia em que entendi isso, libertei meus pais e meu ex-namorado da prisão em que eu tinha os colocado. Entendi que não tinha sido vítima da circunstâncias mas da forma como eu encarava as coisas. Meu ex-namorado me causou uma grande dor mas entendi que eu também tinha sido parte desse processo. Escrevi uma carta pedindo perdão e tive que passar por cima do meu orgulho que dizia: Não perdoe, ele não merece. Ele respondeu à carta me perdoando e a partir daquele dia me tornei uma pessoa livre. A dor sumiu, pude abrir caminho para outras experiências.
A dor do não perdão nos corrói por dentro, é como uma fruta que vai apodrecendo e contaminando nosso corpo como uma infecção generalizada, causando problemas de saúde, transtornos psicológicos e psiquiátricos e nos fechando à cura e à graça de Deus. Uma das conseqüências pode ser a dependência. Aquela raiva velha, guardada, se torna em mágoa e depois em rancor. O rancor nos destrói espiritualmente nos tornando impenetráveis ao Espírito Santo. Ele tampa as brechas que Deus poderia usar. Agora, pergunte a si mesmo: Será que eu nunca causei dor suficiente a uma pessoa que daria o direito a ela de me perseguir por toda a vida? O que você diria se uma das pessoas que você magoou resolvesse não te perdoar e te atormentar até o fim da vida com cartas anônimas, ameaças, maledicências, etc? Você diria que essa pessoa é maluca? Que não consegue esquecer uma besteira que já passou? Se sentiria arrependido?
Quantas vezes destruímos a vida e a família de outras pessoas e ficamos atormentados por alguém que nos traiu apenas uma vez? Quantas vezes aumentamos o erro das pessoas para que os outros fiquem com pena de nós? Quantas vezes nos fixamos nos erros dos outros porque nosso orgulho não deixa que enxerguemos os nossos próprios erros e a nossa parcela de culpa?
Eu não queria perdoar meu ex-namorado por julgar que ele tinha destruído a minha vida, meus planos de casamento. Porém, esqueci que eu tinha destruído os planos de outras pessoas, que tinha magoado amigos com minhas palavras duras, que tinha colocado apelidos nos outros como eu nunca quis que fizesse comigo. Falava mal dele o tempo todo para destacar meu papel de vítima, desejava o mal a ele, queria aparecer com um namorado mais bonito para dizer a ele que eu estava bem melhor do que ele... Quanta coisa vã! Eu vivia minha vida com um foco distorcido, querendo atingir alguém que estava feliz da vida bem longe de mim e sem sentir nada do que eu desejava. Percebi que a escrava era eu e que só eu estava me prejudicando.
Às vezes não queremos perdoar porque achamos que a pessoa não se arrependeu e não merece nosso perdão. Mesmo assim Deus manda perdoar. A frase de Jesus: “Perdoa porque eles não sabem o que fazem” deve também se aplicar a nós. Pecamos contra Deus e muitas vezes não nos arrependemos, querendo ainda convencer a outros do nosso erro. Distorcemos a palavra de Deus, machucamos outras pessoas e nos damos como certos. No caso das dependências, idolatramos nossos traumas e nossos objetos de vício e continuamos achando tudo muito bom. Muita gente não tem noção da dor que nos causou ao nos machucar e se soubesse, não faria mais. Mesmo aqueles que tem noção e que fizeram de propósito devem ser perdoados. Não importa que queiram continuar no erro, cabe a mim não julgar, abrir mão do papel de querer ser Deus e deixar nas mãos dele o que a pessoa faz.
Às vezes tem alguém que tenta te prejudicar no trabalho para obter mais conceito com o chefe. Lógico, ele sabe o que faz, tem consciência e fez com má intenção mas cabe a mim perdoa-lo, o que não significa manter uma amizade com ele. Cabe a mim não mais pensar no assunto, não remoê-lo nem torna-lo foco da minha vida, cabe a mim não ficar alimentando raiva contra a pessoa porque quem não foi amado nunca esbanjará amor. A quem não foi ensinada a honestidade, nunca agirá de forma honesta. As pessoas pobres de espírito são as quem mais sofrem porque estão terrivelmente afastadas dos propósitos de Deus. Além disso, quem arma armadilhas para os outros, sempre está sujeitos a acidentes e falhas. Como dizem por aí: acaba tropeçando nas próprias pernas. Quem fala mal dos outros sempre acabará difamado ou com fama de fofoqueiro.
Alguém que você amou muito pode ter te traído, te prejudicado, sujado seu nome, te difamado por raiva, por vingança ou qualquer outro motivo. Essa pessoa não aprendeu a amar ou, na pior das hipóteses, você pode ter percebido isso bem antes e insistido no erro de se envolver com uma pessoa de caráter duvidoso.
O importante é aprender a enxergar aonde esse ódio vai te levar: para bem longe do caminho de Deus. O ódio e a falta de perdão são armadilhas comuns que o inimigo usa para nos tirar da graça e nos impedir de ser curados. Ele usa do orgulho para fazer dele uma arma contra Deus. Usa a lógica humana para perverter a Deus. Jesus disse que aquele que chamar seu irmão de idiota no tribunal será condenado. A idéia do olho por olho e dente por dente está longe daquilo que Deus quer para nós. Perdoar é o caminho mais difícil mas o mais correto e saudável para quem quer ser de Deus. Não é à toa que a própria Psicologia vem reconhecendo o valor do perdão e lançando a “Terapia do Perdão”.
Já vi gente se libertar do trauma do abuso sexual pelo perdão, curar feridas de família pelo perdão, superar a dor do abandono pelo perdão. A falta de perdão nos torna duros, feridos, magoados, com uma grande muralha agindo contra a palavra de Deus. Se não recorremos a ele, persistimos sendo infantis, crianças na fé que nunca conseguem se desenvolver e ficam paralisadas nos traumas do passado. Sabemos qual é a cura mas dizemos não a Deus. Quem não se entrega à vontade de Deus nunca progride e vai sempre sentir as mesmas dores e ter os mesmos problemas: pense nisso!




A falta de fé como mantenedora das dependências


Você já deve ter ouvido uma pessoa compulsiva falando “Ah, eu não tenho mais jeito”; “Já tentei de tudo mas eu só presto pra isso mesmo” ou “ É impossível, já passei de um ponto muito extremo para ser curado”. Isso são exemplos de falta de fé. Muitas vezes professamos a fé num Deus que nem sabemos bem que é. Ouvimos falar que Deus tudo pode mas isso se traduz apenas uma realidade intelectual que não nos toca profundamente a nível emocional. Dessa forma, sabemos intelectualmente dessa verdade mas é como se ela fosse um mero boato e não uma verdade. Agimos como se Deus fosse semelhante a nós, fraco e limitado. O que vemos como impossível para nós, vemos como impossível para ele também. Achamos que as leis da lógica se aplicam a ele mas Deus é totalmente desconcertante e pode subverter tudo o que pensamos. Algumas áreas da nossa vida são vistas como fora do alcance de Deus, enquanto outras mais plausíveis, conseguimos entregar. O cleptomaníaco que já roubou inúmeras vezes diz: “Isso Deus não cura mais, já virou vício e está arraigado”, o compulsivo sexual diz: “Agora é daqui pra pior, o jeito é morrer.” Nos vemos desesperados, lutando contra as nossas próprias forças sozinhos ou desistindo porque rotulamos alguma coisa de impossível. Dou um exemplo simples: quando eu estagiava num CTI, os médicos havia desenganado um homem, que apesar de todas as tentativas de ser acordado do coma, não conseguia. Estava há mais de três semanas sem sedação mas vivia como um vegetal, sem reagir, apenas dormindo, acordando e sentindo dores. A médica responsável disse que isso era fruto de uma lesão cerebral e deu alta ao doente, para ser cuidado na enfermaria e depois em casa. Essa foi uma situação que a família poderia ter rotulado como impossível, fora do alcance de Deus pois todos os especialistas havia desenganado o homem, usando os recursos da mais moderna medicina. Humanamente a resposta era ‘não’, mas Deus iria subverter toda essa lógica. Tempos depois reencontrei a filha do paciente nos corredores e fiquei surpresa ao descobrir que o paciente tinha se recuperado plenamente sem seqüelas. Mais tarde, a médica me explicou que ele usava um remédio para convulsões que estava mantendo o estado de semi-coma e que o remédio tinha demorado anormalmente para sair do organismo do paciente.
Um exemplo pessoal meu: eu fazia um curso de especialização e por problemas de um trabalho de grupo, fui injustamente expulsa do curso pela professora junto com mais duas colegas. A professora disse que era inútil eu tentar dizer alguma coisa, que eu tiraria zero no trabalho e não precisaria me dar ao trabalho de retornar à sala de aula, apesar das minhas outras notas excelentes. Pedi a Deus misericórdia e tive a certeza que algo de inusitado aconteceria. A professora por fim, aceitou um segundo trabalho mas disse que daria no máximo cinco. Ao final, não só fui aprovada no curso como passei com nota oito no trabalho. Seria também para muitas pessoas, impossível a recuperação de traficantes de drogas pois se ganha muito dinheiro e status mas o grupo Afro Reggae foi montado por ex-traficantes de drogas. Quantos depoimentos vemos de ex-drogados, ex-prostitutas, ex-ladrões, pessoas que desceram até o fundo do poço como Steve Gallagher, hoje pastor evangélico mas que foi um grande viciado em sexo e pornografia ou Eliana Ribeiro, que dá seu testemunho de ex-alcóolatra e usuária de drogas. Quantas pessoas compulsivas são utilizadas por Deus em grandes ministérios depois de se libertarem de grandes escravidões? Não torne Deus do seu tamanho. Fazendo isso, você limita seu poder e sua ação porque não crê que o impossível possa acontecer. Deus tem poder mas a fé é a brecha que Deus necessita no seu coração, é a sua participação de Deus exige para fazer milagres. Não limite Deus ao dizer que ele não pode curar o seu problema. Não carimbe na sua ficha “culpado”, ou “marginal” ou qualquer rótulo que te faça esquecer que você é um ser em transformação, aberto à graça de Deus. Teve alguém muito especial na Bíblia que também separava algumas áreas para Deus e outras que eram inalcançáveis a ele, uma pessoa de fé mas com uma fé menor do que o tamanho de Deus. Mas ela foi desafiada por ele a crer no impossível. Jesus começa questionando: “Quem pensas que eu sou?” e ela, como mulher de fé, diz: “Eu creio que tu és aquele que havia de vir ao mundo...”. Estou falando de Marta, irmã de Maria e Lázaro. Seu irmão havia morrido e ela só diz: “Se você estivesse aqui ele não teria morrido”, como se estivesse dizendo a Jesus: “Olha, antes dava para fazer alguma coisa mas agora é tarde demais, resta esperar a ressurreição”. Mas Jesus desafia sua fé: “Se creres, verás a glória de Deus”. Jesus sempre conta com a nossa colaboração, ele não vai sozinho retirar a pedra, pede que retirem, num ato de fé dos presentes. Mas Marta ainda continua se lamentando: “Senhor, já cheira mal, está aí há 4 dias”, resposta parecida com a de muitos de nós: “Mas, Senhor, isso daí é um processo acabado”. Isso mesmo, você deu um ponto final, fechou por si mesmo a situação sem saber se essa era a vontade de Deus. Você limitou o poder de Deus ao sepultar certas esperanças. Mas Jesus insiste e manda o morto sair com autoridade. Mesmo aquele morto bem enfaixado, bem enterrado, pode sair e voltar à vida se este for o desejo de Deus.
Sua sexualidade, seus impulsos, sua mente, suas lembranças, seu corpo, sua afetividade... Tudo isso pode estar morto, sepultado mas Jesus pode restaurar, dar a você uma visão nova, fazer esses ossos secos se transformarem em homens novamente (Ez 37, 1-14). “Eu sou a ressurreição e a vida”, diz Jesus. Só ele é Senhor da vida e da morte, ninguém pode ressuscitar se não for por meio dele, nem ser enterrado para sempre sem a sua autorização. Abra o seu coração para Jesus, tenha fé e ore para que ele ressuscite seus mortos.
Reflita com o texto integral:

        Mal soube Marta da vinda de Jesus, saiu-lhe ao encontro. Maria, porém, estava sentada em casa. Marta disse a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Mas sei também, agora, que tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá. Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressurgirá.Respondeu-lhe Marta: Sei que há de ressurgir na ressurreição no último dia.Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto? Respondeu ela: Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que devia vir ao mundo. Quando, porém, Maria chegou onde Jesus estava e o viu, lançou-se aos seus pés e disse-lhe: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Tomado, novamente, de profunda emoção, Jesus foi ao sepulcro. Era uma gruta, coberta por uma pedra. Jesus ordenou: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, pois há quatro dias que ele está aí...Respondeu-lhe Jesus: Não te disse eu: Se creres, verás a glória de Deus? Tiraram, pois, a pedra. Levantando Jesus os olhos ao alto, disse: Pai, rendo-te graças, porque me ouviste. Eu bem sei que sempre me ouves, mas falo assim por causa do povo que está em roda, para que creiam que tu me enviaste. Depois destas palavras, exclamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário. Ordenou então Jesus: Desligai-o e deixai-o ir. (João 11, 20-44)  



A dor que mais dói: não poder sofrer pelo outro


A dor que mais dói no coração de quem ama alguém é não poder carregar nem um pouquinho do sofrimento dessa pessoa consigo. Algumas coisas podemos compartilhar como: conversar, sorrisos, brincadeiras e até comemorações de vitória. Mas o sofrimento que é inerente ao se recuperar de uma compulsão é impossível de ser partilhado. A minha vontade louca de sair comprando tudo o que eu vejo, não pode ser dividida com ninguém. Que bom se ela pudesse ser partilhada, dada um pouquinho a uma pessoa benevolente. Mas não, essa batalha é minha para o resto da vida e só minha. Assim é quando somos nós aqueles que assistimos ao sofrimento de um ente querido. Ver as lutas, as batalhas travadas, às vezes ganhas, às vezes perdidas, as confissões da realidade nua e crua, o gosto pelo pecado e pelo erro. Nem sempre é fácil. Quantas vezes choramos junto ou nos desesperamos ao ver que aquela pessoa não consegue se livrar do pecado e se debate incessantemente com o mesmo vício, que parece controlá-la. Algumas pessoas têm clara a necessidade de mudança, se arrependem, choram pensando no que perderam com a compulsão mas ainda assim, é como uma força que as domina, que parecem não poder controlar. Podemos orar por nossos amigos, pais, irmãos, namorados, podemos rogar a Deus por suas lutas mas nem sempre o resultado é imediato e às vezes nos cansamos, desanimamos, achando que Deus não está tendo misericórdia daqueles que mais amamos. Uma mulher, esposa de um viciado em sexo e pornografia desabafa:

“É muito difícil ouvir meu marido dizer que gosta do tipo de sexo mais baixo que existe. Me dói mais ainda saber que tem dias que ele não resiste e vê filmes pornôs na internet. Dói saber o quanto ele gosta de toda essa sujeira e tenho medo que um dia eu não seja mais suficiente para ele. Sei que ele me ama, já demonstrou várias vezes o desejo de se libertar de tudo isso mas diz que sua vontade é fraca e que gosta mesmo do pecado.”

Precisamos crer que Deus é misericordioso e que assiste a todos os nossos sofrimentos, provendo os meios necessários para sairmos deles. Como diz a palavra:

“Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no teu odre: não estão elas inscritas no teu livro?” (Sl 56,8)

Porém, precisamos reconhecer que todo pecado têm suas conseqüências e que estes sofrimentos não são questão de Deus permitir ou não, mas são os frutos colhidos por nossos caminhos mal escolhidos. Deus nunca nos abandona, está sempre segurando as nossas mãos, mas quando pecamos, escolhemos nos afastar dele pois ele não toma parte no pecado. Diz o CIC (1264):
No batizado, porém, certas conseqüências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas de caráter etc., assim como a propensão ao pecado, que a Tradição chama de concupiscência ou, metaforicamente, o "incentivo do pecado" (fomes peccati"): "Deixada para os nossos combates, a concupiscência não é capaz de prejudicar aqueles que, não consentindo nela, resistem com coragem pela graça de Cristo. Mais ainda: 'um atleta não recebe a coroa se não lutou segundo as regras' (2Tm 2,5).

A dificuldade de ter uma auto-estima saudável


Tenho observado recentemente a minha dificuldade de me sentir amada pelo que eu realmente sou. Porém, vejo que eu não sou a única a me sentir assim. Normalmente achamos que seremos amados por algo que temos a oferecer. Nos “treinamos” a oferecer nossos corpos através do sexo, nossos talentos através do sucesso, nosso dinheiro através de presentes e agrados e esquecemos que o melhor presente que temos a oferecer somos nós mesmos.
A causa da compulsão de algumas pessoas é justamente esta: estar sempre querendo oferecer alguma coisa em troca de amor e carinho. Nos tornamos uma mercadoria ou alguém que está sendo sempre espoliado, que tem que estar sempre se esvaziando e se dobrando por alguma coisa, com medo de perder a outra pessoa. Aprendi com a vida que se alguém está conosco, a única coisa que pode prende-lo a nós somos nós mesmos. Qualquer tentativa de controlar a situação é ilusória. Presentes não prendem ninguém, nem dinheiro, nem sexo desenfreado nem quando anulamos as nossas vontades, nem obediência total, nem humilhação, nem sequer preces a Deus. A única coisa que pode prender alguém a nós é o amor.
Jogamos fora nosso tempo tramando um corpo perfeito achando que aquilo nos dará alguma segurança contra a concorrência, procuramos o presente mais maravilhoso, inventamos as estripulias sexuais mais ousadas, compramos a camisola sexy, gastamos rios de dinheiro na escova progressiva, compramos o carro mais luxuoso, compramos o mundo e ainda assim a pessoa dá as costas e vai embora. Não podemos comprar o amor como diz Cânticos dos cânticos. O amor só desperta quando ele quer, nem sequer pode ser despertado. O que prende alguém é a nossa essência e como é difícil colocar isso na nossa cabeça! A graça de Deus tem aqui muito a nos ensinar. Tentamos fazer isso com ele também: comprar seu amor, fazer barganhas. Queremos que Deus nos ame porque somos bonzinhos, porque vamos à Igreja, porque rezamos o terço e nos confessamos. Tudo isso para no final descobrirmos que Deus nos ama tanto quanto aquela prostituta, aquele assassino... Não podemos comprar o amor de Deus e para alguns isso é desesperador. Achamos estranho aceitar algo dessa forma e queremos retribuir para não ficar com a sensação de estar “devendo”. Os dois têm que ter a mesma importância na relação: eu e Deus. Se Deus me dá, tem que haver uma parceria, uma troca. Sinto muito, a lógica de Deus não é a nossa. Vamos sempre ficar devendo. Aliás, nascemos devedores mas Deus não nos cobra. A lógica de Deus é o amor e o amor sem medidas. A graça, como diz o nome, é de graça. Se temos algo a oferecer a Deus é o nosso ser e o nosso amor. Ele ama exatamente aquilo que somos, nos aceita desse jeito.
No mundo, nem sempre é assim. Ninguém ama incondicionalmente. Talvez nem pai e mãe. E isso nos causa feridas pois nos faz funcionar na lógica do “escambo”: se você me amar, eu faço o que você quer. Isso pode até funcionar mas não é amor. O amor é livre e gratuito. Se existe uma condição, não é amor.
Muitas vezes você não foi aceito plenamente pelo que você é e por isso, cresceu achando que não era digno de ninguém por si mesmo, que ou entrava no “esquema” de agradar os outros ou nunca seria aceito. Você se achou um peso, achou que ninguém que toleraria com tantos defeitos e, finalmente, quando apareceu alguém um pouquinho melhor, você se humilhou achando que não teria nada melhor que aquilo. Mas aí vem a boa notícia: tem! Quem ama você de verdade, te aceita como você é. Acha sua essência tão linda que seus defeitos parecem “fichinha”, nada que não se possa passar por cima. Parece besteira se zangar de vez em quando quando se é uma pessoa honesta, justa, íntegra. As pessoas tem problemas emocionais, sabemos que ninguém é perfeito. Trabalhando no hospital, achei os mais lindos exemplos de amor: esposas cuidando dos maridos acamados, muitas vezes em final de vida e ficando de mãos dadas; maridos cuidando das mulheres pacientes psiquiátricas, altamente comprometidas mas respeitando o casamento. Nessas horas, acredito que o amor existe e é a cura para muitos males.
O amor não é paz o tempo todo. As diferenças existem, as pessoas brigam. Mas no amor verdadeiro nunca há falta de respeito e aquele sentimento de admiração pela outra pessoa nunca some do pano de fundo. Acaba a briga e ele está lá “incomodando” para fazer as pazes, criando saudades, pedindo colo. O ser humano nasceu para viver com outros e para sentir essa necessidade de complementação que só o amor traz. Nascemos para sermos amados como somos e Deus complementa o que o amor humano imperfeito é incapaz de fazer. Quando somos amados plenamente por outro ser humano, nossa auto-estima rachada se “cola” novamente, algo brota dentro de nós, um senso de auto-valor, de auto-respeito, um cuidado consigo mesmo que desvela uma série de novas possibilidades de ser.
Porém, para exercitar o amor dessa forma há um pré-requisito: a intimidade. Só ama e é amado quem se permite ser desvelado, que se permite ficar nu espiritualmente e psicologicamente para o outro. Ficar nu fisicamente é cada vez mais fácil mas ficar nu por dentro é extremamente difícil. Não queremos que os outros vejam nossas falhas e problemas com medo que não nos aceitem e não nos amem. Trememos por dentro quando alguém arregala os olhos diante de uma atitude nossa, ficamos ansiosos e pensamos logo no pior. Se essa pessoa te deixar, é porque não estava preparada para você ou talvez não nesse momento. É preciso certa maturidade para se deixar desvelar. Com a graça de Deus alcançamos essa possibilidade e paramos de mentir, esconder. É preciso, antes de se desvelar a quem amamos, que nos desvelemos a Deus, em silêncio, em nossos quartos no momento da oração. É preciso que caminhemos rumo a águas mais profundas e nos deixemos misturar com ele, sermos um só pelo Espírito Santo. Assim, estaremos capacitados a nos desvelar a alguém falho, que pode se assustar conosco, porque nos sentiremos plenamente aceitos como somos. Deus nos ama não apesar dos nossos pecados mas justamente porque somos pecadores e precisamos desse amor. Jesus disse que veio para os que precisam de médico e não para os saudáveis. Somos todos nós. Nossa alma está enferma pelo pecado e pede ajuda àquele que pode nos sustentar com a sua graça.
Dou aqui um exemplo: tive uma briga recente com meu namorado porque ele disse que eu estava dando muitos presentes a ele e ele se preocupava com o dinheiro que eu estava gastando. Fiquei chateada porque sempre foi da minha índole tentar agradar as pessoas com presentes e isso me fazia falta. Mas, refletindo em casa, percebi o tamanho da ferida. Eu tinha me acostumado a dar meu corpo como oferta em troca de amor. Neste namoro atual isso não é possível pois optamos por um namoro santo. Já sem uma das minhas armas, utilizei a outra que estava disponível: os presentes. Não que eu estivesse tentando compra-lo, eu realmente ficava muito feliz ao vê-lo satisfeito com as coisas, queria ajudar em seus estudos e em tudo que ele precisasse mas vi nesse ato, minha tentativa de agrada-lo o máximo possível e não deixar que ele se frustrasse tanto, como se estivesse tentando compensa-lo por meus comportamentos inadequados. É como se eu estivesse tentando agradece-lo por suportar uma pessoa tão insuportável (eu). Sempre me senti mal pelas minhas falhas e pelos meus problemas psicológicos e tentava compensar isso agradando como se isso fosse impedi-lo de me deixar. Refletindo sobre isso essa semana, vi que estava redondamente enganada. Inconscientemente tentava manter o controle de algo mas era apenas ilusão. Não ter as rédeas na mão angustia muito e às vezes nos negamos a perceber que as rédeas nunca estiveram nas nossas mãos e que o risco de perder é diário. Passei a ter que confiar em mim mesma, nas minhas qualidades. Como eu sempre achei que tenho muito poucas, isso foi desesperador. Percebi que Deus estava tirando das minhas mãos as armas que eu achei que tinha pois na verdade elas nunca funcionaram. Nem rezar um rosário inteiro serviria se Deus não achasse que a pessoa era pra mim. Com Deus não podemos barganhar porque ele é livre e como pai, só dá aquilo que seus filhos precisam e não aquilo que querem.
Algumas pessoas chegam a usar armas mais insidiosas como chantagens, ameaças e mentiras para manter o parceiro preso. Algumas dão o “golpe da barriga”. Você pode até manter a pessoa do seu lado, mas o coração dela pode estar a quilômetros de distância dali. A pessoa que não se sente amada pode recorrer a mentiras sobre sua pessoa e seu ambiente para evitar ser “descoberta” nos seus defeitos, se sentir mais forte e poderosa, chegar ao cúmulo de inventar histórias de heroísmo e viver no mundo da fantasia, numa personalidade que ela mesma criou para si. A isso chamamos máscara ou “falso-self”. O falso-self é a pessoa que não conhece a si mesma e cria uma personalidade para agradar às expectativas sociais, desagradando a si mesma. Seu nível de auto-conhecimento é baixíssimo. A pessoa com baixa auto-estima também pode se esconder, se isolar, ficando largada, desmotivada, desistindo de investir em algo que em sua mente só traz decepção. Pode pensar em morte já que não pode nascer de novo. Se acha um caso perdido, sem saída.
Quando você não se conhece, não pode se amar. Peça a Deus que desvele você a você mesmo. Peça para se conhecer, para assumir as verdades sobre você, não significando paralisia ou aquela história do “eu nasci assim”. Você precisa aceitar sua imperfeição, sair do perfeccionismo, perdoar seus defeitos e acolher o amor de Deus no seu coração. Acolhendo-se, você pode acolher a Deus e aos demais como realmente são. A pessoa que se sente aceita se torna mais tolerante, paciente, flexível, menos angustiada e mais curada.
Isso não é fácil. Às vezes me pego me sentindo culpada por ter tal ou tal problema. Mas sei que Deus está no controle e gosto de olhar pra trás e ver o quanto eu avancei. Digo a Deus: “Eu tenho esse problema mas não sei nem posso resolver.” E Deus toma aquilo nas mãos dele porque o que eu não posso, ele pode.
Como filhos de Deus, somos dignos de sermos amados e aceitos, todos nós temos defeitos e qualidades. Por vezes agimos como mecânicos de nós mesmos, saímos apertando porcas e parafusos soltos, quando acabamos, os primeiros já se soltaram de novo. É um trabalho incansável e só nos faz ter uma visão negativa de nós mesmos. Esquecemos de olhar nossas qualidades, aquilo de bom que temos e que é justamente o que Deus e os demais mais valorizam. Nos achamos ruins, cheios de defeitos enquanto que os outros estão vendo nossas qualidades que brilham como ouro pra qualquer um ver. Aí pensamos: Ah, o que está bom já está bom, tenho que melhorar o que está ruim. Concordo, mas temos que ter uma visão equilibrada das coisas e ter paciência conosco mesmos. Os defeitos não foram adquiridos como mágica e nem todos vão desaparecer, afinal, somos seres imperfeitos. O importante é se amar no estado atual, esteja como esteja: sujo, egoísta, mentiroso, não importa. Se ame assim mesmo e você passará a amar mais os outros. Peça a Deus a capacidade de amar que ele tem, a capacidade de aceitar o diferente, de acolher o que as outras pessoas têm de doente, de fazer a correção fraterna. Quem está carente precisa de colo, não de tapas ou beliscões. Você é sempre uma pessoa carente de muitas coisas, em especial da graça de Deus. Se acolha como fraco, necessitado, impotente e deixe Deus ocupar o lugar dele de Senhor de todas as coisas.

A cura das memórias traumáticas

Curar a memória não é uma coisa fácil. Comportamentos, nós podemos eliminar do nosso dia a dia, objetos nós podemos jogar fora mas a memória está dentro de nós e muito bem gravada. Cenas com fortes apelos emocionais e que foram marcantes para nós, seja por motivos positivos ou negativos (ex. abuso sexual), ficam acentuadas em seus detalhes dentro do cérebro e podem nos fazer sofrer por anos a fio. Mas, a boa notícia é que não estamos presos a estas memórias para sempre. Contamos com a ajuda de Deus para curá-las e com a ajuda de métodos psicológicos que podem ser de grande valia, especialmente se conduzidos por um profissional experiente.
Comecemos por falar sobre o conceito de trauma. Hoje em dia, consideramos qualquer coisa como um trauma. Ah, fulano ficou traumatizado, dizemos sobre uma discussão boba. Mas o trauma é mais do que isso. Em Psicologia, chamamos de trauma tudo aquilo que provoca uma marca acentuada na mente de uma pessoa por expo-la ao risco de vida. A pessoa sentiu na pele ou presenciou a exposição de sua própria vida, de sua integridade ou de sua dignidade, um risco real, potencial ou imaginado. Exemplo: Um seqüestro relâmpago que terminou em libertação do prisioneiro sem grandes danos físicos representou um risco potencial de vida e um risco real de dano à integridade psicológica da pessoa. Alguém que sofreu um acidente de carro, teve um risco real de morte. Alguém que sofre constantes ameaças de morte sofre um risco potencial de morte e um risco real ao seu psiquismo. Mas o dano pode ser imaginado também. Alguém que sofre de síndrome do pânico pode achar que vai morrer e sofrer de um risco imaginado de morte.
O trauma pode ter como fonte sentimentos de impotência, desespero, medo, horror, nojo, arrependimento, culpa, ódio, entre outros, marcando uma situação que a pessoa deseja esquecer mas que não consegue. Isso pode fazer com que se desenvolva o chamado Transtorno do Estresse Pós Traumático, que causa um amortecimento das emoções (a pessoa não é fria nem quente, parece com falta de afeto), pesadelos recorrentes, cenas vívidas do trauma que invadem a mente a qualquer hora do dia ou da noite, crises de ansiedade, isolamento social, falta de interesse na vida, reações depressivas, problemas com sono e alimentação, crises de irritabilidade, etc.
O modelo psicológico do transtorno do estresse pós traumático (TEPT) é fácil de entender. Nossa mente funciona como uma fábrica que processa as nossas experiências e as transforma em memórias. Imagina agora um pacote gigantesco entrando na esteira da fábrica. A máquina dá pane pois não consegue processar aquela experiência desconhecida e a fábrica fica emperrada em seu funcionamento. Para tal, é necessário dividir essa experiência estranha e fora dos padrões, em pequenos pedaços que possam ser absorvidos por nossa mente. E esse processo pode ser bastante doloroso.
Dou um exemplo. Uma vez atendi uma paciente que tinha perdido a irmã há quatro anos e estava em estado depressivo, inclusive com vários sintomas físicos. Essa senhora tinha crises freqüentes de agressividade, inclusive batendo e apanhando dos netos. Ela não ia mais a festas de família, não tinha ido ver a irmã no cemitério, se recusou a participar do enterro e não passava nem na rua que a irmã morava. Depois de conhecer melhor a história e criar um vínculo com ela, sugeri que ela iniciasse um diário onde falaria da irmã e da falta que ela fazia. A paciente comprou um caderninho e iniciou com uma carta à irmã, onde colocou tudo o que sentia. Se disse tomada por um grande alívio. Sugeri que descrevesse a irmã fisicamente, falasse com detalhes como foi a morte, descrevesse o ambiente no dia da perda, falasse da saudade que sentia e de como gostaria que a irmã estivesse com ela. A paciente foi continuando o diário e aos poucos, percebi que já passava na rua da irmã e estava começando a sair de casa. Um grande sucesso.
Outra paciente minha, foi abusada sexualmente pelo próprio pai com carícias. Trazia uma grande mágoa e sempre que estava sozinha na sala, chorava e tinha crises de ansiedade, comendo salgadinhos e doces, o que estava deixando-a obesa. Vi uma mulher triste, abatida mas com um grande potencial. Fiz a mesma sugestão. A paciente comprou um caderninho e passou a anotar como se sentia, todas as vezes que tinha vontade de chorar. Com alegria veio me falar do alívio que sentia e disse que aos poucos seu diário foi se tornando mais alegre. Começou a falar dos seus problemas diários, conseguiu se reaproximar da mãe, a quem culpava pelo abuso e conseguiu perdoar o pai já falecido, mostrando-se uma pessoa mais alegre. Sugeri que visse o filme “Voltando a Viver” excelente para quem passou por experiências semelhantes.

Para nós que somos católicos, ainda acrescento outras sugestões.

Comece em clima de oração a invocar o espírito santo e peça a Deus a cura das suas memórias traumáticas. Aqui está uma sugestão de oração:

Senhor, hoje eu venho entregar em tuas mãos todas as minhas memórias. Sei que tu és o dono de todas elas e que conhece tudo que existe em minha mente, mesmo aquilo que desconheço e que pode estar me fazendo mal. Peço hoje, ao invocar o Espírito Santo, que tu me dês sabedoria e discernimento para reconhecer meus problemas e luz para saber como resolve-los. Dai a cura da forma que o Senhor planejou e que eu seja cada vez mais aquilo que o Senhor me criou para ser. Limpa com teu sangue precioso a minha mente e desfaz as imagens ruins, que eu saiba processa-las adequadamente com a tua graça e transforma-las em aprendizado e crescimento mas que elas não me doam mais. Amém.

Em seguida, pegue um caderno novo e responda a algumas perguntas:

  • Qual a área da minha vida que precisa de cura?
  • Por que essas memórias devem ser transformadas?
  • Que sentimento eu tenho quando estou em contato com elas?
  • Que outra atitude em deveria ter em relação a essas memórias?

Relembre detalhadamente cada memória, lembrando de aspectos do ambiente, da aparência das pessoas envolvidas, dos sentimentos que você teve, de outros desfechos que a história poderia ter, não esquecendo de agradecer a Deus pela sua vida e integridade física neste momento e pela graça que ele já concedeu de antemão.

Essas lembranças irão provocar em você lembranças novas, que talvez você tivesse empurrado para o fundo da memória, sentimentos desagradáveis de raiva, tristeza, culpa, etc. Procure entregar tudo isso a Deus e peça a nossa senhora que desate cada nó que você percebeu na sua história. Você também pode rezar assim:

Da culpa, cura-me, Senhor. Do sentimento de desespero, cura-me, Senhor.

Você pode rezar ao final o terço da libertação, o terço comum ou uma oração de entrega a Deus, confiando que ele é poderoso para te fazer superar isso. Sabendo que nem tudo é curado de uma vez só.

Outra idéia é compartilhas as lembranças com um amigo, conselheiro ou psicólogo, que seja paciente para escutar cada detalhe e te ajudar a ver as coisas por outras perspectivas externas e mais saudáveis.

Outra opção é preencher sozinho o quadro de registro de pensamentos disfuncionais, uma técnica psicológica que nos ajuda a pensar de forma mais racional. Ele é feito assim:

SITUAÇÃO: Fui abusada pelo meu pai.

PENSAMENTO: Eu devo ter provocado isso. Acho que usei roupas sensuais demais dentro de casa. A culpa é minha. Eu devo ter participado disso de alguma forma.

SENTIMENTO: Culpa. Nojo.

ATITUDE: Chorar, ter autopiedade, me culpar não me permitindo ser feliz hoje.

PENSAMENTO ALTERNATIVO: Uma criança não poderia saber o que é sensual ou não. Ele era meu pai e deveria ter me respeitado.

ATITUDE ALTERNATIVA: Preciso aprender a me perdoar.

SITUAÇÃO: Seqüestrado em pleno dia por dois homens armados.

PENSAMENTO: Isso pode me acontecer a qualquer minuto novamente. Vou ficar olhando para os lados o tempo todo. Não consigo sair de casa mais.

SENTIMENTO: Medo, pânico, ansiedade, angústia.

ATITUDE: Evitar sair de casa ou sair apenas acompanhado.

PENSAMENTO ALTERNATIVO: Meus cuidados não vão impedir que aconteça de novo. Além disso, acho difícil que seqüestrem a mesma pessoa novamente.

ATITUDE ALTERNATIVA: Sair de casa conversando mentalmente comigo mesmo.

Além disso, a intimidade com Jesus na leitura da palavra, a adoração, a missa e a comunhão, além de direção espiritual, são extremamente necessárias como complemento desse processo.

A cura das memórias sexuais: um capítulo à parte

A pornografia e a compulsão sexual estão se tornando um mal cada vez mais comum no mundo e não poucas as pessoas que lutam contra as memórias sexuais intrusivas. A memória sexual talvez seja a mais difícil de ser eliminada por um simples motivo: ela lida com apelo natural do homem, um instinto que não tem como se apagado e que tem raízes primitivas no cérebro humano. O ser humano é biologicamente preparado para ser responsivo aos estímulos sexuais, por isso, toda imagem pornográfica faz uma marca profunda no cérebro humano, a mais difícil de ser apagada. Assim como num momento de fome extrema você lembra da comida mais deliciosa da sua vida e num momento de sede extrema você deseja ver um rio caudaloso, quando o impulso sexual está animalizado e surge a vontade sexual, a primeira imagem que vem é aquela que mais foi associada ao prazer sexual (mesmo que psicologicamente cause repulsa e mal estar).
As experiências sexuais (todas elas), causam marcas profundas na memória e no corpo da pessoa. As áreas corporais mais afetadas pelo prazer ficam marcadas como áreas sensíveis. Por exemplo: se a pessoa sentiu muito prazer com determinada carícia nas costas, um simples toque cordial pode provocar uma avalanche emocional.
O primeiro passo para a cura das memórias sexuais é se livrar dos estímulos e parar com o comportamento. Jogar fora todo e qualquer estímulo como fitas, DVDs, CDs, arquivos de computador, fotos, objetos de sex shop, camisinhas, pílula anticoncepcional, telefones de homens e mulheres de programa. Além de criar um filtro no computador para sites pornográficos e eliminar canais pornôs da Tv ou pedir para outra pessoa colocar uma senha que você desconheça. Leituras “picantes” como romances cheios de sexo, livros com dicas sexuais do tipo “Como agradar uma mulher/homem na cama”, revistas pornô, quadrinhos eróticos, entre outros, devem ser totalmente eliminados (não apenas guardados). Além disso, cabe mudar certas companhias, fazer outros trajetos quando for para o trabalho ou para casa, cortar amizades com pessoas que também vivem do mundo pornô é imprescindível nesse momento.
O segundo passo é fazer como Jó, que fez uma aliança com os próprios olhos para nãos os pôr sobre uma donzela (já que era casado). Os olhos são a maior fonte de entrada dos estímulos sexuais, portanto, devem ser protegidos. Consagre seus olhos diariamente a nossa senhora, assim como todo seu ser através da oração de consagração que é curta e poderosa:

Ó, minha senhora e também minha mãe
Eu me ofereço inteiramente todo a vós
E em prova da minha devoção, eu hoje vos dou meu coração
Consagro a vós meus olhos, meus ouvidos, minha boca
Tudo o que sou, desejo que a vós pertença
Incomparável mãe, guardai-me, defendei-me como coisa e propriedade vossa
Amém.

Mas a proteção dos olhos (e dos sentidos) em geral não passa só por aí. Você terá que desviar os olhos dos estímulos sexuais ao invés de deleitar-se com eles como fazia de costume. Desviar os olhos de decotes, saias e shorts mais curtos, pernas torneadas e por aí vai. Para os homens, evitar olhar catálogos de lingerie que parecem “inocentes”, desviar os olhos das moçoilas semi-nuas que andam pelas ruas todos os dias e para aquelas que estão em outdoors e na propaganda em geral. Para as mulheres, evitar as revistas femininas com reportagens sobre “sexo lacrado” e os romances cheios de cenas sexuais.
Para ambos, selecionar melhor os filmes que assistem, evitando aqueles que possuem muitas cenas sexuais (ex.: American Pie, Sexo, amor e outras drogas, Nove semanas e meia de amor, etc.) ou que defendem o sexo sem compromisso, evitar programas de TV com desfiles de lingerie e “patroas” em ensaios sensuais, programas de clipes picantes que passam pela madrugada, enfim, coisas que parecem inocentes mas que podem corroer todo um edifício de castidade que se está lutando para erguer.
A proteção dos olhos também passa pelo parceiro(a) que deve se vestir de modo contido e ter comportamento de não-provocação, pois a compulsão sexual pode precisar de um período de abstinência para ser curada (exceto no caso de pessoas casadas, que não se recomenda). O período de abstinência sexual é o mais difícil pois a pessoa tem comportamentos de abstinência semelhante ao das drogas. Porém, o comportamento sexual pode precisar ser suspenso de todo durante um período.

§         Técnicas para ajudar a trabalhar a compulsão sexual

Com toda suspensão do comportamento pecaminoso, em conjunto com uma vida de oração (especialmente o terço) e de medidas de proteção contra o risco de recaída (aqui não entro em tantos detalhes), o desejo sexual da pessoa só continuará sendo alimentado pelas memórias passadas. Como esse desejo compulsivo é como uma fogueira, ele precisa de combustível. Quando o combustível principal é cortado (a experiência presente), ele é buscado na imaginação. É como se existisse um banco de dados na mente, com todas as experiências sexuais arquivadas (imagens, sons, sensações). O cérebro busca a informação que alimenta o desejo naquele momento, revivendo as experiências como se elas estivessem acontecendo naquele momento (como uma alucinação). Com a insistência, essas memórias vão se enfraquecendo e perdendo o gás de tanto serem “usadas”, porém esse processo precisa ser acelerado com algumas técnicas, talvez mesmo ajuda profissional.

à Vantagens e desvantagens: Você pode pegar uma folha de papel e fazer quatro colunas. À esquerda você vai colocar as vantagens ao lado das desvantagens do sexo compulsivo e à direita, as vantagens e desvantagens do sexo saudável/abstinência. Coloque um peso em cada resposta e veja para onde a balança pende. Caso ainda penda para o sexo compulsivo, ore a Deus, admita que gosta do pecado e que quer ter uma vontade mais forte confiando na sua graça.

à Objetivos de vida: Descreva seu estado atual de vida em relação à vida sexual com detalhes e ao lado, como você gostaria de estar sexualmente falando. Veja se seu objetivo é realmente realista ou algo do tipo “totalmente sem desejo sexual” (algo que é impossível). Trace pequenas metas em forma de passos/degraus para alcançar o objetivo. Exemplo:

Atualmente: Me masturbo compulsivamente, estou com dificuldade de jogar fora minhas revistas pornográficas, não quero colocar um filtro no computador. Quando abre pop-up de sexo eu me sinto tentado a entrar no site. Tenho passado diariamente em frente à livraria pornô que freqüentava que me sentido tentado a entrar todos os dias. Outro dia parei na porta.
Ideal: Gostaria de não entrar mais na livraria pornô, parar de me masturbar, jogar fora minhas revistas e não acessar mais sites pornôs.
Metas: 1. Mudar a rota de acesso ao trabalho. 2.Colocar ainda hoje um filtro na internet (ou pedir para outra pessoa colocar); 3. Entrar na internet de dia para não cair em tentação (tem gente em casa). 4. Quando sentir a primeira tentação de me masturbar, ir para um local onde tenha gente/me distrair.

à Diário sexual: Você pode comprar um caderno e escrever suas experiências ruins em relação à compulsão sexual. Atenção: não detalhe as experiências sexuais porque isso pode detonar uma nova crise. Detalhe as experiências emocionais ruins, coloque as conseqüências dos seus atos, descreva como você se sente por ser compulsivo.

Exemplo: Eu me sinto um fracassado por ser compulsivo porque existe alguma coisa que está me vencendo, me escravizando. A minha vontade não consegue resistir. Fico chateado quando quero respeitar a minha namorada e acabo saindo com uma mulher por quem nem me sinto tão atraído. A minha consciência pesa e nós acabamos brigando como aquela vez na festa do meu melhor amigo. A mulher deu em cima de mim. Eu queria resistir mas acabou rolando de tudo, depois me senti culpado, não sabia dizer como tinha trocado a minha namorada por alguém que não tem nada a ver comigo...

Você também pode colocar no diário as vantagens de deixar de ser um compulsivo, descrever como a sua vida ficará melhor e o que pode ganhar com isso.

à Prestação de contas

Você pode ter um amigo/conselheiro a quem você preste contas semanalmente dos seus atos. Você pode dividir essas experiências com ele em vez de escrever, pedir conselhos e falar dos seus pontos fracos para que ele ore junto com você e dê dicas.

à Cartões de enfrentamento

Essa é uma técnica para situações de risco. Você pode fazer cartões (pequenas fichas) onde coloca dicas para você mesmo em locais potencialmente perigosos de recaída (ex. computador, porta do armário, banheiro, carteira). Você pode escrever algo como “Pense duas vezes” ou “Isso não está te levando a nada”, ou ainda “Respire fundo, você consegue”. Quando se mora com mais gente, você pode colocar um código que só você entende.

à Levar todo pensamento cativo a Deus/ renovação da mente

Você precisa cortar os pensamentos sexuais da sua mente. A diminuição drástica dos estímulos externos fará com que a fonte principal deixe de ser alimentada. No entanto, os estímulos internos continuam. Quando se der conta de pensamentos ou cenas sexuais fluindo, corte-os deliberadamente, peça ajuda a Deus e distraia sua mente para outra coisa, uma leitura, um problema a resolver, ver televisão, jogar um jogo, etc. Com o tempo, você vai conseguir “domar” a sua mente rebelde. Peça a Deus uma pureza da mente.

à Registro de pensamentos disfuncionais

O modelo anteriormente apresentado para uso no TEPT aqui também é muito útil.

à Grupos de auto-ajuda
Existe o grupo Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DAS) que pode ser freqüentado por homens ou mulheres e é gratuito. Conversar com outros compulsivos pode ser interessante, até para aprender outras estratégias de enfrentamento.

à Usar Deus contra a compulsão

Se você não tem como desviar seu caminho para casa ou para o trabalho e no meio dele existe justamente um ambiente pornô ou de risco a ser evitado, uma solução é colocar um walkman no ouvido com uma pregação, música religiosa ou algo que fale de Deus e te dê forças para enfrentar e passar batido.

à Fuga das situações de risco

Exemplos podem ser a eliminação de certas pessoas da agenda do celular, o bloqueio de contatos, a extinção do MSN ou da webcam se for motivo de queda, a saída de redes sociais, não ficar sozinho em casa em horários que podem ser de risco, procurar estar sempre na companhia de alguém em momentos de crise, evitar ambientes de risco como citado no item anterior, buscar uma adoração quando se sentir muito fraco, não deixar de ir à missa, orar num momento de maior ansiedade, louvar cantando ou tocando um instrumento. Se seu problema é com prostitutas, evite sair com dinheiro a mais de casa.

à Curar a base da compulsão

A compulsão com certeza foi causada por alguma ferida emocional profunda que ficou intocada até o dia de hoje. Este é o momento de (re)conhecer esta ferida e pedir a ajuda de Deus para cura-la. Você pode passar por momentos de cura interior, aconselhamento ou psicoterapia com profissional qualificado. O certo é que se essa ferida permanecer intocada, a mesma ou outra compulsão irá tomá-lo de novo. Peça a Deus também para curar sua identidade e auto-estima.

à Retiros/Grupos de oração

São os melhores locais para se passar por uma experiência profunda de oração, repousar no espírito, beber da água viva. Um retiro nesses momentos pode ser um tratamento intensivo ou de choque que vai dar uma grande força na caminhada.

à Invista em você e nos outros

Invista em você e nos outros em outras áreas, cultivando amizades, cuidando da aparência e da saúde, estudando, valorizando seus atributos outros que não os sexuais. Você deve ter como centro da sua identidade, a sua essência e não a performance sexual. Você serve para muito mais do que sexo e precisa explorar suas outras possibilidades.

Boa sorte!