domingo, 7 de outubro de 2012


A dificuldade de ter uma auto-estima saudável


Tenho observado recentemente a minha dificuldade de me sentir amada pelo que eu realmente sou. Porém, vejo que eu não sou a única a me sentir assim. Normalmente achamos que seremos amados por algo que temos a oferecer. Nos “treinamos” a oferecer nossos corpos através do sexo, nossos talentos através do sucesso, nosso dinheiro através de presentes e agrados e esquecemos que o melhor presente que temos a oferecer somos nós mesmos.
A causa da compulsão de algumas pessoas é justamente esta: estar sempre querendo oferecer alguma coisa em troca de amor e carinho. Nos tornamos uma mercadoria ou alguém que está sendo sempre espoliado, que tem que estar sempre se esvaziando e se dobrando por alguma coisa, com medo de perder a outra pessoa. Aprendi com a vida que se alguém está conosco, a única coisa que pode prende-lo a nós somos nós mesmos. Qualquer tentativa de controlar a situação é ilusória. Presentes não prendem ninguém, nem dinheiro, nem sexo desenfreado nem quando anulamos as nossas vontades, nem obediência total, nem humilhação, nem sequer preces a Deus. A única coisa que pode prender alguém a nós é o amor.
Jogamos fora nosso tempo tramando um corpo perfeito achando que aquilo nos dará alguma segurança contra a concorrência, procuramos o presente mais maravilhoso, inventamos as estripulias sexuais mais ousadas, compramos a camisola sexy, gastamos rios de dinheiro na escova progressiva, compramos o carro mais luxuoso, compramos o mundo e ainda assim a pessoa dá as costas e vai embora. Não podemos comprar o amor como diz Cânticos dos cânticos. O amor só desperta quando ele quer, nem sequer pode ser despertado. O que prende alguém é a nossa essência e como é difícil colocar isso na nossa cabeça! A graça de Deus tem aqui muito a nos ensinar. Tentamos fazer isso com ele também: comprar seu amor, fazer barganhas. Queremos que Deus nos ame porque somos bonzinhos, porque vamos à Igreja, porque rezamos o terço e nos confessamos. Tudo isso para no final descobrirmos que Deus nos ama tanto quanto aquela prostituta, aquele assassino... Não podemos comprar o amor de Deus e para alguns isso é desesperador. Achamos estranho aceitar algo dessa forma e queremos retribuir para não ficar com a sensação de estar “devendo”. Os dois têm que ter a mesma importância na relação: eu e Deus. Se Deus me dá, tem que haver uma parceria, uma troca. Sinto muito, a lógica de Deus não é a nossa. Vamos sempre ficar devendo. Aliás, nascemos devedores mas Deus não nos cobra. A lógica de Deus é o amor e o amor sem medidas. A graça, como diz o nome, é de graça. Se temos algo a oferecer a Deus é o nosso ser e o nosso amor. Ele ama exatamente aquilo que somos, nos aceita desse jeito.
No mundo, nem sempre é assim. Ninguém ama incondicionalmente. Talvez nem pai e mãe. E isso nos causa feridas pois nos faz funcionar na lógica do “escambo”: se você me amar, eu faço o que você quer. Isso pode até funcionar mas não é amor. O amor é livre e gratuito. Se existe uma condição, não é amor.
Muitas vezes você não foi aceito plenamente pelo que você é e por isso, cresceu achando que não era digno de ninguém por si mesmo, que ou entrava no “esquema” de agradar os outros ou nunca seria aceito. Você se achou um peso, achou que ninguém que toleraria com tantos defeitos e, finalmente, quando apareceu alguém um pouquinho melhor, você se humilhou achando que não teria nada melhor que aquilo. Mas aí vem a boa notícia: tem! Quem ama você de verdade, te aceita como você é. Acha sua essência tão linda que seus defeitos parecem “fichinha”, nada que não se possa passar por cima. Parece besteira se zangar de vez em quando quando se é uma pessoa honesta, justa, íntegra. As pessoas tem problemas emocionais, sabemos que ninguém é perfeito. Trabalhando no hospital, achei os mais lindos exemplos de amor: esposas cuidando dos maridos acamados, muitas vezes em final de vida e ficando de mãos dadas; maridos cuidando das mulheres pacientes psiquiátricas, altamente comprometidas mas respeitando o casamento. Nessas horas, acredito que o amor existe e é a cura para muitos males.
O amor não é paz o tempo todo. As diferenças existem, as pessoas brigam. Mas no amor verdadeiro nunca há falta de respeito e aquele sentimento de admiração pela outra pessoa nunca some do pano de fundo. Acaba a briga e ele está lá “incomodando” para fazer as pazes, criando saudades, pedindo colo. O ser humano nasceu para viver com outros e para sentir essa necessidade de complementação que só o amor traz. Nascemos para sermos amados como somos e Deus complementa o que o amor humano imperfeito é incapaz de fazer. Quando somos amados plenamente por outro ser humano, nossa auto-estima rachada se “cola” novamente, algo brota dentro de nós, um senso de auto-valor, de auto-respeito, um cuidado consigo mesmo que desvela uma série de novas possibilidades de ser.
Porém, para exercitar o amor dessa forma há um pré-requisito: a intimidade. Só ama e é amado quem se permite ser desvelado, que se permite ficar nu espiritualmente e psicologicamente para o outro. Ficar nu fisicamente é cada vez mais fácil mas ficar nu por dentro é extremamente difícil. Não queremos que os outros vejam nossas falhas e problemas com medo que não nos aceitem e não nos amem. Trememos por dentro quando alguém arregala os olhos diante de uma atitude nossa, ficamos ansiosos e pensamos logo no pior. Se essa pessoa te deixar, é porque não estava preparada para você ou talvez não nesse momento. É preciso certa maturidade para se deixar desvelar. Com a graça de Deus alcançamos essa possibilidade e paramos de mentir, esconder. É preciso, antes de se desvelar a quem amamos, que nos desvelemos a Deus, em silêncio, em nossos quartos no momento da oração. É preciso que caminhemos rumo a águas mais profundas e nos deixemos misturar com ele, sermos um só pelo Espírito Santo. Assim, estaremos capacitados a nos desvelar a alguém falho, que pode se assustar conosco, porque nos sentiremos plenamente aceitos como somos. Deus nos ama não apesar dos nossos pecados mas justamente porque somos pecadores e precisamos desse amor. Jesus disse que veio para os que precisam de médico e não para os saudáveis. Somos todos nós. Nossa alma está enferma pelo pecado e pede ajuda àquele que pode nos sustentar com a sua graça.
Dou aqui um exemplo: tive uma briga recente com meu namorado porque ele disse que eu estava dando muitos presentes a ele e ele se preocupava com o dinheiro que eu estava gastando. Fiquei chateada porque sempre foi da minha índole tentar agradar as pessoas com presentes e isso me fazia falta. Mas, refletindo em casa, percebi o tamanho da ferida. Eu tinha me acostumado a dar meu corpo como oferta em troca de amor. Neste namoro atual isso não é possível pois optamos por um namoro santo. Já sem uma das minhas armas, utilizei a outra que estava disponível: os presentes. Não que eu estivesse tentando compra-lo, eu realmente ficava muito feliz ao vê-lo satisfeito com as coisas, queria ajudar em seus estudos e em tudo que ele precisasse mas vi nesse ato, minha tentativa de agrada-lo o máximo possível e não deixar que ele se frustrasse tanto, como se estivesse tentando compensa-lo por meus comportamentos inadequados. É como se eu estivesse tentando agradece-lo por suportar uma pessoa tão insuportável (eu). Sempre me senti mal pelas minhas falhas e pelos meus problemas psicológicos e tentava compensar isso agradando como se isso fosse impedi-lo de me deixar. Refletindo sobre isso essa semana, vi que estava redondamente enganada. Inconscientemente tentava manter o controle de algo mas era apenas ilusão. Não ter as rédeas na mão angustia muito e às vezes nos negamos a perceber que as rédeas nunca estiveram nas nossas mãos e que o risco de perder é diário. Passei a ter que confiar em mim mesma, nas minhas qualidades. Como eu sempre achei que tenho muito poucas, isso foi desesperador. Percebi que Deus estava tirando das minhas mãos as armas que eu achei que tinha pois na verdade elas nunca funcionaram. Nem rezar um rosário inteiro serviria se Deus não achasse que a pessoa era pra mim. Com Deus não podemos barganhar porque ele é livre e como pai, só dá aquilo que seus filhos precisam e não aquilo que querem.
Algumas pessoas chegam a usar armas mais insidiosas como chantagens, ameaças e mentiras para manter o parceiro preso. Algumas dão o “golpe da barriga”. Você pode até manter a pessoa do seu lado, mas o coração dela pode estar a quilômetros de distância dali. A pessoa que não se sente amada pode recorrer a mentiras sobre sua pessoa e seu ambiente para evitar ser “descoberta” nos seus defeitos, se sentir mais forte e poderosa, chegar ao cúmulo de inventar histórias de heroísmo e viver no mundo da fantasia, numa personalidade que ela mesma criou para si. A isso chamamos máscara ou “falso-self”. O falso-self é a pessoa que não conhece a si mesma e cria uma personalidade para agradar às expectativas sociais, desagradando a si mesma. Seu nível de auto-conhecimento é baixíssimo. A pessoa com baixa auto-estima também pode se esconder, se isolar, ficando largada, desmotivada, desistindo de investir em algo que em sua mente só traz decepção. Pode pensar em morte já que não pode nascer de novo. Se acha um caso perdido, sem saída.
Quando você não se conhece, não pode se amar. Peça a Deus que desvele você a você mesmo. Peça para se conhecer, para assumir as verdades sobre você, não significando paralisia ou aquela história do “eu nasci assim”. Você precisa aceitar sua imperfeição, sair do perfeccionismo, perdoar seus defeitos e acolher o amor de Deus no seu coração. Acolhendo-se, você pode acolher a Deus e aos demais como realmente são. A pessoa que se sente aceita se torna mais tolerante, paciente, flexível, menos angustiada e mais curada.
Isso não é fácil. Às vezes me pego me sentindo culpada por ter tal ou tal problema. Mas sei que Deus está no controle e gosto de olhar pra trás e ver o quanto eu avancei. Digo a Deus: “Eu tenho esse problema mas não sei nem posso resolver.” E Deus toma aquilo nas mãos dele porque o que eu não posso, ele pode.
Como filhos de Deus, somos dignos de sermos amados e aceitos, todos nós temos defeitos e qualidades. Por vezes agimos como mecânicos de nós mesmos, saímos apertando porcas e parafusos soltos, quando acabamos, os primeiros já se soltaram de novo. É um trabalho incansável e só nos faz ter uma visão negativa de nós mesmos. Esquecemos de olhar nossas qualidades, aquilo de bom que temos e que é justamente o que Deus e os demais mais valorizam. Nos achamos ruins, cheios de defeitos enquanto que os outros estão vendo nossas qualidades que brilham como ouro pra qualquer um ver. Aí pensamos: Ah, o que está bom já está bom, tenho que melhorar o que está ruim. Concordo, mas temos que ter uma visão equilibrada das coisas e ter paciência conosco mesmos. Os defeitos não foram adquiridos como mágica e nem todos vão desaparecer, afinal, somos seres imperfeitos. O importante é se amar no estado atual, esteja como esteja: sujo, egoísta, mentiroso, não importa. Se ame assim mesmo e você passará a amar mais os outros. Peça a Deus a capacidade de amar que ele tem, a capacidade de aceitar o diferente, de acolher o que as outras pessoas têm de doente, de fazer a correção fraterna. Quem está carente precisa de colo, não de tapas ou beliscões. Você é sempre uma pessoa carente de muitas coisas, em especial da graça de Deus. Se acolha como fraco, necessitado, impotente e deixe Deus ocupar o lugar dele de Senhor de todas as coisas.

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