domingo, 7 de outubro de 2012


A cura começa pela reconstrução do templo


“Vocês estavam contaminando seus sacrifícios com sua vida cheia de egoísmo e maldade. E não contaminavam só os sacrifícios, mas tudo o que vocês faziam como serviço para mim. Por isso, tudo o que vocês faziam dava errado. Mas, de agora em diante vai ser diferente porque vocês começaram a reconstruir o templo. Antes, quando vocês esperavam uma colheita de 500 quilos, o campo só produzia 250. Quando esperavam obter 250 litros de azeite, as oliveiras só produziam 100. Eu recompensei todo o seu trabalho com ferrugem, bolor e chuva de pedras. Apesar disso, vocês teimavam em não voltar pra mim, diz o Senhor. Mas, agora, prestem atenção nisso: a partir de hoje, o 24o dia do mês, dia em que foram colocados os alicerces do templo, eu os abençoarei. Notem bem que eu estou fazendo essa promessa antes mesmo de começarem a levantar a estrutura do templo, antes de terem colhido os cereais e antes de as uvas, os figos, as romãs e as azeitonas surgirem. A partir de hoje eu os abençoarei.”

Ageu 2, 14-19.

A cura das dependências começa com a reconstrução do templo, o templo de Deus que habita dentro de você. Como já vimos em outros textos, as dependências se constituem em uma forma de idolatria, na qual o trono do nosso coração que deveria ser de Deus, é ocupado por outra pessoa ou situação. Idolatramos nossas drogas e nossos comportamentos doentios, fazendo com que nossa vida dependa totalmente deles, como se estivéssemos de joelhos, adorando um outro Deus. Achamos que não podemos viver sem aquilo pois é o que dá sentido às nossas vidas.
Também abordamos em outros textos as espécies de muralhas que podemos construir ao nosso redor. Existem a muralha que nos protege contra o inimigo e aquela que nos “protege” contra a ação de Deus. Essas muralhas são muitas vezes construídas de forma inconsciente, como forma de nos proteger das inúmeras feridas que possuímos. O problema é em que lugar colocamos Deus: se dentro ou fora da muralha. Quando ele está dentro, nos protege, nos auxilia na resistência, coloca seus anjos como guardas das nossas portas. Essa pode ser chamada de armadura do cristão, que nos protege contra as investidas do inimigo pois colocamos nossa confiança em Deus. O outro tipo de muralha é aquela que deixa Deus do lado de fora por medo de sermos tocados em nossas feridas, por orgulho, rancor ou mágoa, deixamos nosso Senhor do lado de fora e colocamos como senhor das nossas vidas o nosso medo e os nossos traumas. O medo de abordar certos assuntos é tão grande que não deixamos que Deus entre porque protegidos pelo nosso orgulho nos sentimos seguros.
Porém, existe um fato que não podemos esquecer: só poderemos ser verdadeiramente curados quando estabelecermos o lugar certo das coisas. Nossos próprios pecados e escolhas fizeram com que fôssemos exilados da presença de Deus. Por livre e espontânea vontade decidimos nos afastar dele ao elegermos outros deuses. Assim, criamos um obstáculo à graça de Deus, que não consegue penetrar em nossos corações. Então, o primeiro passo é desfazer esse processo e dar a Deus o que lhe pertence: nosso coração. Precisamos colocar Deus no centro das nossas decisões e tirar de lá o nosso eu ou as coisas do mundo. Isso significa dar as rédeas plenamente nas mãos dele e deixar que retome o controle, mesmo que numa direção que não nos agrada. É confiar que a providência de Deus é maior que os nossos medos, é pensar o que Jesus faria na sua situação, é usar a misericórdia e o amor como princípios da sua vida. Quando resolvemos colocar Jesus no centro da nossa vida e paramos de lutar contra a vontade dele, estamos iniciando a reconstrução do templo. A palavra já diz: Como podemos ser felizes pensando em fazer nossas casas enquanto o templo de Deus está em ruínas? (Ageu 1,3). O próprio Senhor atrasa nossos planos e faz com que eles dêem errado para ver se nos damos conta de sua ausência em nossas vidas. Todo projeto que levamos à frente sem o aval do Senhor está fadado ao fracasso. Existirão muitos empecilhos e em algum momento, as coisas não vão mais à frente e se forem, sofreremos sérias conseqüências.
Quando começamos a reconstruir o templo do nosso coração, as coisas podem parecer difíceis. Perto do que você já foi nos seus tempos áureos da Igreja, a simplicidade de hoje pode parecer nada aos olhos de Deus, seus esforços podem parecer estar sendo inúteis como se Deus não se agradasse de tão pouco. Mas ele diz: “O templo antigo era uma coisa fabulosa! Esse que vocês estão construindo agora, em comparação parece insignificante. Mas não desanimem, estou com vocês!” (Ageu 2,3). O Senhor reconhece e valoriza nossos esforços pela cura. Sabe que um templo suntuoso não se constrói do dia para a noite e que o que importa é a nossa aliança com ele, o nosso compromisso. Deus sabe a importância de cada tijolo acrescentado ao templo e conhece o cansaço que se abate sobre nós, trabalhando sol a sol debaixo de poeira, sol, chuva...Nosso templo interior também é reconstruído dessa forma, debaixo de grandes esforços, lutas espirituais, obstáculos impostos pelo inimigo... O importante é que estejamos colocando cada tijolo quando vamos à missa, comungamos, confessamos, freqüentamos um grupo de oração, fazemos direção espiritual, etc. Deus nunca nos abandona e faz questão de afirmar isso abertamente. A partir do momento que iniciamos nossos esforços para reconstruir o templo do nosso coração, Deus nos abençoa e promete grandes coisas antes mesmos de terminarmos a obra. O que Deus quer é um coração contrito e voltado para ele. Neste templo ele vai nos dar a paz, por mais simples que seja. A glória de Deus habitará no nosso templo simples e é ela que fará dele maior ainda que o primeiro templo (Ageu 2,8).
Quando somos da Igreja, caímos feio e resolvemos procurar a Deus para nos levantar, nos encontramos cada vez mais fortalecidos. A Glória do nosso templo só pode ser maior que a primeira pois vencemos obstáculos maiores, conhecemos a desgraça e sentimos falta do nosso pai. Assim como a história do filho pródigo (Lucas 15, 11-31). O filho mais novo partilhava de tudo o que era do pai, depois que esbanjou os bens e retornou, foi recebido com festa, roupas novas e honra pois tinha sido encontrado novamente e com certeza, deu muito mais valor ao pai do que antes.
Não importa se você tem dificuldade de se concentrar, se não tem vontade de ir à missa, se fica irritado em ambientes de oração, o que importa é que esteja lá. Seu espírito está bebendo de todo esse clima e aos poucos suas defesas mais arraigadas começarão a ceder diante do apelo do pai. “Eu estou contigo, não temas”, é uma das frases mais repetidas de toda a Bíblia, talvez porque Deus saiba o quanto somos teimosos e continuamos querendo confiar apenas em nós mesmos. Sozinhos não temos força para dar sequer um passo adiante para longe do pecado mas com Deus, podemos correr uma maratona inteira porque ele é o complemento da força que nos falta.
Experimente lançar os alicerces do seu templo e colocar sua mão de obra à disposição para Deus te usar como instrumento. Experimente tirar a droga, o sexo, o dinheiro, o trabalho ou o que quer que seja do centro do seu coração. Estes são apenas simulacros de substituto para Deus. São os bezerros de ouro que criamos, um deus falso que podemos dirigir para onde queremos. O verdadeiro Deus não se deixa moldar por quem quer que seja, pense nisso!
Se o templo do seu coração anda desabitado, sua alma está em mal estado. Os deuses falsos não conseguem coexistir com o Deus verdadeiro porque ninguém serve a dois deuses, amará um e odiará o outro(Lucas 16,13). Assim, a condição para que os deuses falsos existam dentro de nós é exterminar o Deus verdadeiro a começar pela destruição do nosso templo interior e de tudo relacionado a ele. Isso é o que faziam aqueles que desejavam servir a deuses estrangeiros: primeiro destruíam tudo o que lembrava o culto a Deus e depois construíam suas oferendas a outros deuses. Seu coração não está dividido, muito pelo contrário, ele tem uma lealdade clara: sua dependência. Deus deseja hoje que você ceda a ele o lugar que lhe pertence. O primeiro mandamento diz:  Adorarás o Senhor teu Deus e somente a ele servirás (Dt 6, 13-14). Esse é o primeiro mandamento justamente porque é o mais importante e fundamental, não pode ser resumido, revogado nem alterado.
A conseqüência de não seguir o primeiro mandamento é ter a vida virada de pernas para o ar, com todas as coisas ocupando lugares errados. Se o certo é que tudo gravite em torno do senhorio de Jesus, o que acontece quando Jesus começa a gravitar em torno de outros senhores que você mesmo escolheu? Ele fica na posição de servo, impossibilitado de agir e trazer graça para a sua vida. Jesus é gentil, não toma o lugar à força, aguarda pacientemente a sua decisão. Quantos de nós resolvemos sentar nesse trono e dizer: Eu sou dono do meu nariz e não devo nada a ninguém? A verdade é que fomos criados para devermos satisfações a alguém. Fomos criados para sermos totalmente dependentes de Deus. Essa tendência saudável à dependência pode ser erradamente manejada para se tornar uma dependência das coisas. A única cura é reconstruir o templo do seu coração, onde há um trono especial para o rei, o único rei: o Senhor que venceu a morte e o pecado, aquele que nos ensina a amar, o único que nos ama incondicionalmente. Esse rei não é tirano, não quer nos humilhar mas nos receber de braços abertos como pai misericordioso, quer nos convidar a fazer parte do seu reino, quer nos tornar seus amigos, muito mais do que seus empregados. O primeiro passo é simples: querer, ter vontade. O segundo? Se esforçar por isso, dar o seu máximo. A partir daí a graça de Deus entra te ajudando a fazer o impossível.
Tem uma frase de São Francisco de Assis que eu gosto muito e que resume o resultado desse esforço: Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível. 

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