A cura começa pela reconstrução do templo
“Vocês estavam contaminando seus sacrifícios com sua vida
cheia de egoísmo e maldade. E não contaminavam só os sacrifícios, mas tudo o
que vocês faziam como serviço para mim. Por isso, tudo o que vocês faziam dava
errado. Mas, de agora em diante vai ser diferente porque vocês começaram a
reconstruir o templo. Antes, quando vocês esperavam uma colheita de 500 quilos,
o campo só produzia 250. Quando esperavam obter 250 litros de azeite, as
oliveiras só produziam 100. Eu recompensei todo o seu trabalho com ferrugem,
bolor e chuva de pedras. Apesar disso, vocês teimavam em não voltar pra mim,
diz o Senhor. Mas, agora, prestem atenção nisso: a partir de hoje, o 24o dia do
mês, dia em que foram colocados os alicerces do templo, eu os
abençoarei. Notem bem que eu estou fazendo essa promessa antes mesmo de
começarem a levantar a estrutura do templo, antes de terem colhido os cereais e
antes de as uvas, os figos, as romãs e as azeitonas surgirem. A partir de hoje
eu os abençoarei.”
Ageu 2, 14-19.
A cura das dependências começa com a reconstrução do
templo, o templo de Deus que habita dentro de você. Como já vimos em outros
textos, as dependências se constituem em uma forma de idolatria, na qual o
trono do nosso coração que deveria ser de Deus, é ocupado por outra pessoa ou
situação. Idolatramos nossas drogas e nossos comportamentos doentios, fazendo
com que nossa vida dependa totalmente deles, como se estivéssemos de joelhos,
adorando um outro Deus. Achamos que não podemos viver sem aquilo pois é o que
dá sentido às nossas vidas.
Também abordamos em outros textos
as espécies de muralhas que podemos construir ao nosso redor. Existem a muralha
que nos protege contra o inimigo e aquela que nos “protege” contra a ação de
Deus. Essas muralhas são muitas vezes construídas de forma inconsciente, como
forma de nos proteger das inúmeras feridas que possuímos. O problema é em que
lugar colocamos Deus: se dentro ou fora da muralha. Quando ele está dentro, nos
protege, nos auxilia na resistência, coloca seus anjos como guardas das nossas
portas. Essa pode ser chamada de armadura do cristão, que nos protege contra as
investidas do inimigo pois colocamos nossa confiança em Deus. O outro tipo de
muralha é aquela que deixa Deus do lado de fora por medo de sermos tocados em
nossas feridas, por orgulho, rancor ou mágoa, deixamos nosso Senhor do lado de
fora e colocamos como senhor das nossas vidas o nosso medo e os nossos traumas.
O medo de abordar certos assuntos é tão grande que não deixamos que Deus entre
porque protegidos pelo nosso orgulho nos sentimos seguros.
Porém, existe um fato que não
podemos esquecer: só poderemos ser verdadeiramente curados quando
estabelecermos o lugar certo das coisas. Nossos próprios pecados e escolhas
fizeram com que fôssemos exilados da presença de Deus. Por livre e espontânea
vontade decidimos nos afastar dele ao elegermos outros deuses. Assim, criamos
um obstáculo à graça de Deus, que não consegue penetrar em nossos corações.
Então, o primeiro passo é desfazer esse processo e dar a Deus o que lhe
pertence: nosso coração. Precisamos colocar Deus no centro das nossas decisões
e tirar de lá o nosso eu ou as coisas do mundo. Isso significa dar as rédeas
plenamente nas mãos dele e deixar que retome o controle, mesmo que numa direção
que não nos agrada. É confiar que a providência de Deus é maior que os nossos
medos, é pensar o que Jesus faria na sua situação, é usar a misericórdia e o
amor como princípios da sua vida. Quando resolvemos colocar Jesus no centro da
nossa vida e paramos de lutar contra a vontade dele, estamos iniciando a
reconstrução do templo. A palavra já diz: Como podemos ser felizes pensando em
fazer nossas casas enquanto o templo de Deus está em ruínas? (Ageu 1,3). O
próprio Senhor atrasa nossos planos e faz com que eles dêem errado para ver se
nos damos conta de sua ausência em nossas vidas. Todo projeto que levamos à
frente sem o aval do Senhor está fadado ao fracasso. Existirão muitos
empecilhos e em algum momento, as coisas não vão mais à frente e se forem,
sofreremos sérias conseqüências.
Quando começamos a reconstruir o
templo do nosso coração, as coisas podem parecer difíceis. Perto do que você já
foi nos seus tempos áureos da Igreja, a simplicidade de hoje pode parecer nada
aos olhos de Deus, seus esforços podem parecer estar sendo inúteis como se Deus
não se agradasse de tão pouco. Mas ele diz: “O templo antigo era uma coisa
fabulosa! Esse que vocês estão construindo agora, em comparação parece
insignificante. Mas não desanimem, estou com vocês!” (Ageu 2,3). O Senhor
reconhece e valoriza nossos esforços pela cura. Sabe que um templo suntuoso não
se constrói do dia para a noite e que o que importa é a nossa aliança com ele,
o nosso compromisso. Deus sabe a importância de cada tijolo acrescentado ao
templo e conhece o cansaço que se abate sobre nós, trabalhando sol a sol
debaixo de poeira, sol, chuva...Nosso templo interior também é reconstruído
dessa forma, debaixo de grandes esforços, lutas espirituais, obstáculos
impostos pelo inimigo... O importante é que estejamos colocando cada tijolo
quando vamos à missa, comungamos, confessamos, freqüentamos um grupo de oração,
fazemos direção espiritual, etc. Deus nunca nos abandona e faz questão de
afirmar isso abertamente. A partir do momento que iniciamos nossos esforços
para reconstruir o templo do nosso coração, Deus nos abençoa e promete grandes
coisas antes mesmos de terminarmos a obra. O que Deus quer é um coração
contrito e voltado para ele. Neste templo ele vai nos dar a paz, por mais
simples que seja. A glória de Deus habitará no nosso templo simples e é ela que
fará dele maior ainda que o primeiro templo (Ageu 2,8).
Quando somos da Igreja, caímos
feio e resolvemos procurar a Deus para nos levantar, nos encontramos cada vez
mais fortalecidos. A Glória do nosso templo só pode ser maior que a primeira
pois vencemos obstáculos maiores, conhecemos a desgraça e sentimos falta do
nosso pai. Assim como a história do filho pródigo (Lucas 15, 11-31). O filho
mais novo partilhava de tudo o que era do pai, depois que esbanjou os bens e
retornou, foi recebido com festa, roupas novas e honra pois tinha sido
encontrado novamente e com certeza, deu muito mais valor ao pai do que antes.
Não importa se você tem
dificuldade de se concentrar, se não tem vontade de ir à missa, se fica
irritado em ambientes de oração, o que importa é que esteja lá. Seu espírito
está bebendo de todo esse clima e aos poucos suas defesas mais arraigadas
começarão a ceder diante do apelo do pai. “Eu estou contigo, não temas”, é uma
das frases mais repetidas de toda a Bíblia, talvez porque Deus saiba o quanto
somos teimosos e continuamos querendo confiar apenas em nós mesmos. Sozinhos
não temos força para dar sequer um passo adiante para longe do pecado mas com
Deus, podemos correr uma maratona inteira porque ele é o complemento da força
que nos falta.
Experimente lançar os alicerces
do seu templo e colocar sua mão de obra à disposição para Deus te usar como
instrumento. Experimente tirar a droga, o sexo, o dinheiro, o trabalho ou o que
quer que seja do centro do seu coração. Estes são apenas simulacros de
substituto para Deus. São os bezerros de ouro que criamos, um deus falso que
podemos dirigir para onde queremos. O verdadeiro Deus não se deixa moldar por
quem quer que seja, pense nisso!
Se o templo do seu coração anda
desabitado, sua alma está em mal estado. Os deuses falsos não conseguem
coexistir com o Deus verdadeiro porque ninguém serve a dois deuses, amará um e
odiará o outro(Lucas 16,13). Assim, a condição para que os deuses falsos existam
dentro de nós é exterminar o Deus verdadeiro a começar pela destruição do nosso
templo interior e de tudo relacionado a ele. Isso é o que faziam aqueles que
desejavam servir a deuses estrangeiros: primeiro destruíam tudo o que lembrava
o culto a Deus e depois construíam suas oferendas a outros deuses. Seu coração
não está dividido, muito pelo contrário, ele tem uma lealdade clara: sua
dependência. Deus deseja hoje que você ceda a ele o lugar que lhe pertence. O
primeiro mandamento diz: Adorarás o
Senhor teu Deus e somente a ele servirás (Dt 6, 13-14). Esse é o primeiro
mandamento justamente porque é o mais importante e fundamental, não pode ser
resumido, revogado nem alterado.
A conseqüência de não seguir o
primeiro mandamento é ter a vida virada de pernas para o ar, com todas as
coisas ocupando lugares errados. Se o certo é que tudo gravite em torno do
senhorio de Jesus, o que acontece quando Jesus começa a gravitar em torno de
outros senhores que você mesmo escolheu? Ele fica na posição de servo, impossibilitado
de agir e trazer graça para a sua vida. Jesus é gentil, não toma o lugar à
força, aguarda pacientemente a sua decisão. Quantos de nós resolvemos sentar
nesse trono e dizer: Eu sou dono do meu nariz e não devo nada a ninguém? A
verdade é que fomos criados para devermos satisfações a alguém. Fomos criados
para sermos totalmente dependentes de Deus. Essa tendência saudável à
dependência pode ser erradamente manejada para se tornar uma dependência das
coisas. A única cura é reconstruir o templo do seu coração, onde há um trono
especial para o rei, o único rei: o Senhor que venceu a morte e o pecado,
aquele que nos ensina a amar, o único que nos ama incondicionalmente. Esse rei
não é tirano, não quer nos humilhar mas nos receber de braços abertos como pai
misericordioso, quer nos convidar a fazer parte do seu reino, quer nos tornar
seus amigos, muito mais do que seus empregados. O primeiro passo é simples:
querer, ter vontade. O segundo? Se esforçar por isso, dar o seu máximo. A
partir daí a graça de Deus entra te ajudando a fazer o impossível.
Tem uma frase de São Francisco de
Assis que eu gosto muito e que resume o resultado desse esforço: Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e
de repente você estará fazendo o impossível.


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