A dor que mais dói: não poder sofrer pelo outro
A dor que mais dói no coração de quem ama alguém é não
poder carregar nem um pouquinho do sofrimento dessa pessoa consigo. Algumas
coisas podemos compartilhar como: conversar, sorrisos, brincadeiras e até comemorações
de vitória. Mas o sofrimento que é inerente ao se recuperar de uma compulsão é
impossível de ser partilhado. A minha vontade louca de sair comprando tudo o
que eu vejo, não pode ser dividida com ninguém. Que bom se ela pudesse ser
partilhada, dada um pouquinho a uma pessoa benevolente. Mas não, essa batalha é
minha para o resto da vida e só minha. Assim é quando somos nós aqueles que
assistimos ao sofrimento de um ente querido. Ver as lutas, as batalhas
travadas, às vezes ganhas, às vezes perdidas, as confissões da realidade nua e
crua, o gosto pelo pecado e pelo erro. Nem sempre é fácil. Quantas vezes
choramos junto ou nos desesperamos ao ver que aquela pessoa não consegue se
livrar do pecado e se debate incessantemente com o mesmo vício, que parece
controlá-la. Algumas pessoas têm clara a necessidade de mudança, se arrependem,
choram pensando no que perderam com a compulsão mas ainda assim, é como uma
força que as domina, que parecem não poder controlar. Podemos orar por nossos
amigos, pais, irmãos, namorados, podemos rogar a Deus por suas lutas mas nem
sempre o resultado é imediato e às vezes nos cansamos, desanimamos, achando que
Deus não está tendo misericórdia daqueles que mais amamos. Uma mulher, esposa
de um viciado em sexo e pornografia desabafa:
“É muito difícil ouvir meu marido dizer que gosta do tipo
de sexo mais baixo que existe. Me dói mais ainda saber que tem dias que ele não
resiste e vê filmes pornôs na internet. Dói saber o quanto ele gosta de toda
essa sujeira e tenho medo que um dia eu não seja mais suficiente para ele. Sei
que ele me ama, já demonstrou várias vezes o desejo de se libertar de tudo isso
mas diz que sua vontade é fraca e que gosta mesmo do pecado.”
Precisamos crer que Deus é
misericordioso e que assiste a todos os nossos sofrimentos, provendo os meios
necessários para sairmos deles. Como diz a palavra:
“Contaste os meus
passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no teu odre:
não estão elas inscritas no teu livro?” (Sl 56,8)
Porém, precisamos reconhecer que
todo pecado têm suas conseqüências e que estes sofrimentos não são questão de
Deus permitir ou não, mas são os frutos colhidos por nossos caminhos mal
escolhidos. Deus nunca nos abandona, está sempre segurando as nossas mãos, mas
quando pecamos, escolhemos nos afastar dele pois ele não toma parte no pecado.
Diz o CIC (1264):
No batizado, porém, certas
conseqüências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a
doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas de
caráter etc., assim como a propensão ao pecado, que a Tradição chama de
concupiscência ou, metaforicamente, o "incentivo do pecado" (fomes
peccati"): "Deixada para os nossos combates, a concupiscência não
é capaz de prejudicar aqueles que, não consentindo nela, resistem com coragem
pela graça de Cristo. Mais ainda: 'um atleta não recebe a coroa se não
lutou segundo as regras' (2Tm 2,5).


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