A falta de perdão como origem das dependências
Ontem atendi uma paciente que me relatou a seguinte
história: sua vida ia bem e gostava muito do pai. Seus pais eram casados e
aparentemente felizes, sua família era evangélica e tinha muitas amigas. Há um
tempo atrás o pai traiu a mãe de forma explícita e a vida dessa garota mudou
radicalmente. Passou a detestar pessoas e se entregar à depressão. Parou de
falar com o pai, que era seu exemplo de vida. Hoje em dia não come, não dorme,
passa o dia trancada no quarto, chora o tempo todo, não estuda e olha para a
parede. Ela reagiu à falta de perdão de forma depressiva, se entregando à raiva
que voltou contra si mesma, por não conseguir tocar no assunto da traição nem
com a mãe. Porém, ela poderia ter reagido de outra forma. Para aliviar a dor,
poderia ter recorrido às drogas ou ao comportamento compulsivo.
Uma outra paciente minha, já
senhora, também não perdoa a nora, que disse certas coisas que a magoaram. Não
consegue nem tocar no assunto. Desde esse dia tem uma depressão que nenhum
remédio cura. Se trata num grande hospital psiquiátrico já tendo dobrado a dose
do remédio. Quando toquei com cuidado nesse assunto do perdão, chorou com
grande dor e disse que não consegue perdoar. Esse problema tem infernizado sua
vida há mais de 10 anos. Ela prefere se manter à base de remédios do que tocar
na raiz da dor.
Muitas pessoas pensam que perdoar
é libertar a pessoa daquele sofrimento onde acham que ela está. Perdoar pode
parecer fraqueza, é como se você castigasse a pessoa ao não abrir mão daquela
mágoa e conceder o perdão. No entanto, isso se trata de uma grande mentira do
inimigo. Quando você “prende” uma pessoa a você pela mágoa, isso acontece
apenas na sua mente, consumindo uma grande energia. A pessoa está longe de você
e não sofre as conseqüências do seu castigo, não sente nada e continua livre
para fazer aquilo que bem entende, inclusive continuar errando. Você se consome dia e noite, drenando
energia do seu corpo, da sua mente e do seu espírito para não deixar passar
essa mágoa, que é a tendência natural do ser humano. Você se mantém encarcerado
junto com a pessoa pois o carcereiro é tão escravo quanto aquele preso que tem
que vigiar para não fugir. É como se você afundasse uma bola no fundo de uma
piscina. Ela fica fazendo força para voltar para cima e você fica cada vez mais
cansado de tentar empurra-la. Das duas uma: ou ela sobe ou você morre afogado.
É conhecida a história da Bíblia
em que um homem devia dinheiro ao seu patrão e pediu clemência. O patrão
perdoou a dívida pois teve pena daquele indivíduo que nunca teria como pagar
tanto dinheiro e tinha família para sustentar. No entanto, este mesmo sujeito
cobrou uma dívida de pequena monta e um companheiro. O devedor pediu clemência
mas foi jogado sem dó nem piedade na prisão. O patrão do primeiro homem, ao
ficar sabendo de tamanha injustiça, condenou-o ao pagamento total da dívida.
Quantas vezes não somos como esse homem injusto? Deus nos perdoa de tantas
coisas: ofensas contra ele, mentiras, adultério, falta de fé, idolatria,
maldades, etc. e nós não hesitamos de manter outras pessoas trancafiadas,
destilando todo nosso ódio contra elas. Deus se desagrada profundamente desse
comportamento pois um dos maiores ensinamentos de Jesus foi justamente a
misericórdia e o não julgamento. Como você quer ser tratado por Deus: com
justiça ou com misericórdia. Você quer que Deus perdoe seus pecados ou que te
castigue a cada má ação cometida? A justiça de Deus é muito pesada, nós seres
humanos nunca conseguiríamos resistir, no entanto, é esse princípio que usamos
para os outros. Assim, estamos permitindo que Deus use conosco a justiça, a
qual certamente iremos sucumbir porque no tribunal de Deus ninguém é julgado
inocente. Nossas faltas são muitas perto daquelas que os outros causaram contra
nós. Deus é ofendido todos os dias, injuriado, novamente cuspido e crucificado
por nós que não seguimos seus mandamentos como deveríamos. Mas nossa
consciência continua chamado de justiça aquilo que é vingança. Pese na balança
o que o outro te fez e o que você fez aos outros. Vale a pena castiga-lo e
vingar-se dele? Tira primeiro a trave dos seus olhos antes de tirar o cisco do
olho do seu irmão. É fácil se fazer de cego aos próprios pecados quando a dor
que o outro causou é nosso foco de vida. Vivemos para nos vingar, tramamos
planos de ofensa, maledicência, agressão, xingamento e às vezes até morte para
defendermos nossa honra, para darmos a lição que aquela pessoa merece. Mas,
esquecemos de um detalhe importante: cabe apenas a Deus julgar o pecado de cada
um. Não somos juízes de ninguém. Não podemos roubar o lugar de Deus, fazendo um
simulacro de julgamento e acreditarmos que a justiça foi feita. Qual a justiça
que há em bater naquele que te ofendeu? Jesus nos manda oferecer a outra face
quando apanharmos, dar o manto se te pedem a túnica. A lógica do nosso Deus é
muito maior do que a lógica humana porque é a lógica da misericórdia. A
parábola dos trabalhadores da vinha, em que os últimos receberam a mesma paga
daqueles que trabalharam todo o dia, mostra que Deus não opta pela justiça, mas
pela misericórdia.Ficamos incomodados ao descobrir que Deus nos ama tanto
quanto aqueles que nos machucaram profundamente e que eles podem ir para o céu
apesar de tudo. É como se Deus respondesse também a nós: Estou sendo injusto
contigo ou estás com inveja porque estou sendo bom? A nós não cabe entender os
critérios que Deus usa, mas usarmos sempre a misericórdia porque somente ele
conhece profundamente a nossa alma e as coisas que nos levaram a ser como somos.
A pessoa ferida olha muito para
sua própria dor e se considera o centro do universo: ele me feriu porque quis.
Nem sempre. Às vezes as pessoas possuem feridas internas que fazem com que ajam
de certa forma ou simplesmente não receberam amor. Quem é tratado como objeto,
trata os outros como objeto. Além disso, devemos assumir nossa parcela de culpa
em nossas próprias feridas. Será que você não se envolveu com as pessoas
erradas? Será que você não estava consciente dos riscos quando decidiu se meter
com certas pessoas? Será que no caminho do pecado você se machucou e agora
culpa os outros?
No dia em que entendi isso,
libertei meus pais e meu ex-namorado da prisão em que eu tinha os colocado.
Entendi que não tinha sido vítima da circunstâncias mas da forma como eu
encarava as coisas. Meu ex-namorado me causou uma grande dor mas entendi que eu
também tinha sido parte desse processo. Escrevi uma carta pedindo perdão e tive
que passar por cima do meu orgulho que dizia: Não perdoe, ele não merece. Ele
respondeu à carta me perdoando e a partir daquele dia me tornei uma pessoa
livre. A dor sumiu, pude abrir caminho para outras experiências.
A dor do não perdão nos corrói
por dentro, é como uma fruta que vai apodrecendo e contaminando nosso corpo
como uma infecção generalizada, causando problemas de saúde, transtornos
psicológicos e psiquiátricos e nos fechando à cura e à graça de Deus. Uma das
conseqüências pode ser a dependência. Aquela raiva velha, guardada, se torna em
mágoa e depois em rancor. O rancor nos destrói espiritualmente nos tornando
impenetráveis ao Espírito Santo. Ele tampa as brechas que Deus poderia usar.
Agora, pergunte a si mesmo: Será que eu nunca causei dor suficiente a uma
pessoa que daria o direito a ela de me perseguir por toda a vida? O que você
diria se uma das pessoas que você magoou resolvesse não te perdoar e te
atormentar até o fim da vida com cartas anônimas, ameaças, maledicências, etc?
Você diria que essa pessoa é maluca? Que não consegue esquecer uma besteira que
já passou? Se sentiria arrependido?
Quantas vezes destruímos a vida e
a família de outras pessoas e ficamos atormentados por alguém que nos traiu
apenas uma vez? Quantas vezes aumentamos o erro das pessoas para que os outros
fiquem com pena de nós? Quantas vezes nos fixamos nos erros dos outros porque
nosso orgulho não deixa que enxerguemos os nossos próprios erros e a nossa
parcela de culpa?
Eu não queria perdoar meu
ex-namorado por julgar que ele tinha destruído a minha vida, meus planos de
casamento. Porém, esqueci que eu tinha destruído os planos de outras pessoas,
que tinha magoado amigos com minhas palavras duras, que tinha colocado apelidos
nos outros como eu nunca quis que fizesse comigo. Falava mal dele o tempo todo
para destacar meu papel de vítima, desejava o mal a ele, queria aparecer com um
namorado mais bonito para dizer a ele que eu estava bem melhor do que ele...
Quanta coisa vã! Eu vivia minha vida com um foco distorcido, querendo atingir
alguém que estava feliz da vida bem longe de mim e sem sentir nada do que eu
desejava. Percebi que a escrava era eu e que só eu estava me prejudicando.
Às vezes não queremos perdoar
porque achamos que a pessoa não se arrependeu e não merece nosso perdão. Mesmo
assim Deus manda perdoar. A frase de Jesus: “Perdoa porque eles não sabem o que
fazem” deve também se aplicar a nós. Pecamos contra Deus e muitas vezes não nos
arrependemos, querendo ainda convencer a outros do nosso erro. Distorcemos a
palavra de Deus, machucamos outras pessoas e nos damos como certos. No caso das
dependências, idolatramos nossos traumas e nossos objetos de vício e
continuamos achando tudo muito bom. Muita gente não tem noção da dor que nos
causou ao nos machucar e se soubesse, não faria mais. Mesmo aqueles que tem
noção e que fizeram de propósito devem ser perdoados. Não importa que queiram
continuar no erro, cabe a mim não julgar, abrir mão do papel de querer ser Deus
e deixar nas mãos dele o que a pessoa faz.
Às vezes tem alguém que tenta te
prejudicar no trabalho para obter mais conceito com o chefe. Lógico, ele sabe o
que faz, tem consciência e fez com má intenção mas cabe a mim perdoa-lo, o que
não significa manter uma amizade com ele. Cabe a mim não mais pensar no
assunto, não remoê-lo nem torna-lo foco da minha vida, cabe a mim não ficar
alimentando raiva contra a pessoa porque quem não foi amado nunca esbanjará
amor. A quem não foi ensinada a honestidade, nunca agirá de forma honesta. As
pessoas pobres de espírito são as quem mais sofrem porque estão terrivelmente
afastadas dos propósitos de Deus. Além disso, quem arma armadilhas para os
outros, sempre está sujeitos a acidentes e falhas. Como dizem por aí: acaba
tropeçando nas próprias pernas. Quem fala mal dos outros sempre acabará
difamado ou com fama de fofoqueiro.
Alguém que você amou muito pode
ter te traído, te prejudicado, sujado seu nome, te difamado por raiva, por
vingança ou qualquer outro motivo. Essa pessoa não aprendeu a amar ou, na pior
das hipóteses, você pode ter percebido isso bem antes e insistido no erro de se
envolver com uma pessoa de caráter duvidoso.
O importante é aprender a
enxergar aonde esse ódio vai te levar: para bem longe do caminho de Deus. O
ódio e a falta de perdão são armadilhas comuns que o inimigo usa para nos tirar
da graça e nos impedir de ser curados. Ele usa do orgulho para fazer dele uma
arma contra Deus. Usa a lógica humana para perverter a Deus. Jesus disse que
aquele que chamar seu irmão de idiota no tribunal será condenado. A idéia do
olho por olho e dente por dente está longe daquilo que Deus quer para nós. Perdoar
é o caminho mais difícil mas o mais correto e saudável para quem quer ser de
Deus. Não é à toa que a própria Psicologia vem reconhecendo o valor do perdão e
lançando a “Terapia do Perdão”.
Já vi gente se libertar do trauma
do abuso sexual pelo perdão, curar feridas de família pelo perdão, superar a
dor do abandono pelo perdão. A falta de perdão nos torna duros, feridos,
magoados, com uma grande muralha agindo contra a palavra de Deus. Se não
recorremos a ele, persistimos sendo infantis, crianças na fé que nunca
conseguem se desenvolver e ficam paralisadas nos traumas do passado. Sabemos
qual é a cura mas dizemos não a Deus. Quem não se entrega à vontade de Deus
nunca progride e vai sempre sentir as mesmas dores e ter os mesmos problemas:
pense nisso!


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