A autopiedade como causa das compulsões
Auto-piedade é o sentimento, emoção ou
comportamento de pena de si mesmo diante de um
evento estressante. É um sentimento associado ao auto-conforto com importante
papel nas relações humanas. Pode envolver desde um comportamento breve,
ocasional e transitório como comer doces após um dia estressante até um traço
de personalidade central expressado mesmo sem
provocação ou diante de percepções distorcidas e que causa sofrimento a si e
aos outros mas é mantido por um ganho secundário.
(Definição da Wikipedia)
Autopiedade é ter pena de si mesmo. Muitas pessoas se
fazem de vítimas das situações, atribuindo sempre a culpa de seus fracassos aos
outros. São pessoas que colocam à mercê dos outros como se eles fossem grandes
e fortes e ela, um nada. São inúmeros os exemplos de pessoas que agem assim. Um
exemplo bem concreto e próximo da nossa realidade são as mulheres que terminam
um namoro ou um casamento e começam a falar mal do cônjuge, como se só ele
tivesse sido culpado. O amor anterior se transforma em ódio e o mocinho em
vilão. Quantas vezes eu mesma me utilizei deste comportamento. Depois de
terminar um namoro de 4 anos, culpei meu namorado de não ter pensado em mim,
pensei em mil outras maneiras dele ter feito isso, apontei as suas falhas
esquecendo que antes de tirar o cisco do olho dele, precisava tirar a trave do
meu (Mt 7,3). Veja só como Jesus fala: o outro tem apenas um pequeno cisco no
outro. A trave do seu olho é enorme mas você não enxerga porque seu foco é
sempre o outro. Estamos cheios de mulheres vitimadas por aí, de pobres
coitadinhas sofredoras, maltratadas pelo destino, que foram esmagadas por
alguém mais forte que elas e não tiveram saída. Agindo assim, dão um poder ao
outro que ele não possui. Essas pessoas normalmente são carentes, dependentes
de atenção e agem de forma infantil, às vezes inclusive falando com voz de
criança. Por medo de errar, de não agradar, de ser abandonada, a pessoa age de
forma imprudente, se ocultando à sombra de um outro. Quando existe um erro, a
responsabilidade nunca foi dela. Mas ela esquece que permitiu que isto
acontecesse na sua vida.
Se você vai se casar e um dos
seus pais ou amigos diz: “Não gosto desse cara. Não aprovo isso” e você muda de
opinião ou se fica volúvel de acordo com as opiniões diferentes, você está
deixando seu destino na mãos dos outros. Não adianta dizer mais tarde: Eu fui
uma pobre coitada, perdi meu grande amor porque meus pais/amigos tiraram de
mim. Isso é uma ilusão, uma mentira porque foi você que desistiu de lutar.
Outro exemplo são as pessoas que
só vêem as coisas negativas, se vêem como vítimas de Deus, de um mundo injusto
porque não tiveram oportunidade, porque só vêem derrotas, sem nunca assumirem
sua parte nos erros. “Deus foi ruim pra mim, não me deixou realizar aquele sonho”,
pensamos desta forma por não compreendermos a Deus em sua infinita sabedoria.
Temos que jogar a culpa em alguém, então que seja nele. Ou então dizem: “Que
mundo cruel, só tive decepções, nada na minha vida deu certo”. Essas pessoas
deixam de ser gratas pelas coisas boas e resolvem focar nas coisas ruins.
Seja como for, a atitude de
auto-piedade é extremamente escravizante e infantil. Somos vítimas a princípio
de uma situação real mas que se extingue um dia e acabamos vivendo uma situação
imaginária. Pedindo socorro aos outros para nos libertarem, esperando os amigos
aprovarem seu casamento para você finalmente ser feliz, esperando o patrão ser
justo para poder sorrir, esperando os problemas acabarem ou o mundo ajudar a
manter a imagem de vítima que você tem. Essas pessoas normalmente acabam
desenvolvendo uma hipersensibilidade às críticas e detestam qualquer um que
questiona seu lugar de vítimas, inventando às vezes argumentos falsos para
embasar sua lógica e não passar vergonha.
A pessoa que dá todo esse poder
aos outros acaba tendo uma identidade fantasiosa, rompendo com uma parte da
própria personalidade e acabando por não se auto-conhecer adequadamente. Tapa o
sol com a peneira e deixa seu destino na mão dos outros, abrindo mão de se
conhecer e de se experimentar, desconhecendo assim também a sua vocação e seus
dons. Arranca uma parte de si mesmo que não quer ver e toma as situações de
forma extremamente parcial. Como vimos em outros textos, o preço de ocultar ou
retirar parte de si mesmo, é sempre um vazio existencial que acaba sendo
preenchido com drogas e outras compulsões. A compulsão é apenas um sintoma.
Leia esse texto que achei na
internet e é de auto desconhecido:
Dois velhos amigos se encontraram, após muitos anos.
Entretanto, a vida tinha levado um a se tornar muito rico e o outro
miserável.Eles ficaram juntos muitas horas, trocando remininscências e bebendo
saquê. O homem rico era muito generoso e afável, mas seu amigo só sabia se
entregar à autopiedade.Após certo tempo, o homem miserável adormeceu, e seu
amigo, condoído com sua condição, resolveu lhe dar uma dádiva e antes de partir
introduziu-lhe no bolso um belo diamante. "Se meu pobre amigo estiver em
dificuldades poderá conseguir uma boa soma com a venda desta jóia", pensou
o bom homem.Anos se passaram e os dois amigos de novo se encontraram. Mas o
homem miserável continuava assim, e ainda se lamentando."Mas como ainda
estás tão pobre depois de tantos anos?", perguntou o rico,
surpreso."Pobre de mim!", lamuriou-se o outro, "Sou inútil, e ninguém
se importa comigo! Sou incapaz de ganhar dinheiro para
sobreviver!""Tua autopiedade e egoísmo te fizeram um tolo! Não fosse
tua profunda cegueira auto-indulgente, poderias há muito ter percebido o
tesouro que deixei em teu bolso!"
Deus é esse homem que coloca o tesouro em nós. Não no nosso
bolso mas dentro de nós. Às vezes, nossa cegueira espiritual não permite que
enxerguemos. Nossas comparações com as outras pessoas fazem com que só vejamos
falhas enquanto os outros vêem em nós tantos tesouros. Achamos que a nossa cruz
é pesada demais e que a dos outros é bem mais leve, pintamos um quadro muito
pior do que realmente existe. No entanto, cada um sabe a dor da cruz que
carrega. Cada um só pude suportar a própria cruz. Como diz um outro texto:
Conta-se que um jovem convertido ao Evangelho recebeu
sua cruz para seguir, juntamente com os outros pela estrada da Jerusalém
Celeste. Torturava-o, porém o peso da cruz que lhe fora confiada. E fatigava-o
tanto com a carga, que ele se via forçado a descansar de quando em quando...
Conta-se que um jovem convertido ao Evangelho recebeu sua cruz para seguir,
juntamente com os outros pela estrada da Jerusalém Celeste. Torturava-o, porém
o peso da cruz que lhe fora confiada. E fatigava-o tanto com a carga, que ele se
via forçado a descansar de quando em quando. “Má sorte a minha”, lamentava o
moço, “deram-me a mais pesada das cruzes”. Movido por sentimento egoístico,
lembrou-se, numa pousada, de trocar a sua cruz por outra mais leve, dentre as
que conduziam seus companheiros de jornada. Aproveitando a escuridão da noite,
pé ante pé, sem ser pressentido, foi ao sítio em que se achavam depositadas as
cruzes e experimentando uma a uma, escolheu aquela que lhe parecia a mais leve
e tomou-a para si. No dia seguinte, reiniciada a viagem, notou que ninguém se
dizia prejudicado com a troca feita; só então verificou que a cruz que ele
escolhera por ser mais leve de todas, era justamente a sua.
Os outros parecem sempre estar
carregando cruzes mais leves, talvez porque sorriem, talvez porque conseguiram
aceitar sua própria cruz e enfeita-la com flores como fez Santa Teresinha. É
como na academia de ginástica. Uma vez fui observar uma pessoa fazendo certo
exercício para as pernas e me pareceu muito fácil. Quando tomei seu lugar no aparelho,
vi que o peso era enorme. Isso acontece porque ninguém pode estar no lugar do
outro e a grama do vizinho sempre parece mais verde. Quando começamos nos
processo de autopiedade, centramos o universo em nós e nas nossas dores,
fazendo do nosso medo e dos nossos traumas os senhores da nossa vida.
“Se alguém quiser
acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.(Mc 8,34).
Percebemos que Jesus não obriga
ninguém a carregar a própria cruz e muito menos fala para arrastarmos a cruz
pela vida. É para tomar a cruz, leva-la, abraça-la. E qual a primeira condição
para isso? Negar; repudiar; renunciar a vontade própria. Isto significa que
renunciar a vontade própria vai muito além de deixar alguma coisa que gosta.
Negar-se significa impedir que o seu “EU” seja o centro da sua vida e dos seus
atos.

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